sexta-feira, 5 de novembro de 2021

 Para quem não sabe Fartura ficava em terras espanholas.

Naquela manhã de sábado, 21 de janeiro de 1623, a floresta de mata atlântica que cobria a região do Tijuco Preto( Piraju) se mostrava quente e úmida. O solo, ainda encharcado pelas últimas chuvas torrenciais guardava em baixo relevo as pegadas de índios e onças que frequentemente transitavam por suas trilhas, enquanto o caminho das tropas seguia silencioso por entre o arvoredo por onde passavam de quando em quando, no lombo de mulas, os padres da Companhia de Jesus que possuíam uma Missão no território espanhol do Guairá, algumas léguas após a travessia do rio e que me traziam noticias dos aparentados que moravam em São Paulo de Piratininga.
A vida por essas bandas sempre foi pacata e apesar das dificuldades na minha chegada para assumir minha Sesmaria, tudo foi resolvido pacificamente. Dos Kaiuás consegui mudas de mandioca e na Missão Jesuítica, sementes de milho, arroz, aves e suínos. A produção era de sobrevivência e o excedente era usado como moeda de escambo. O sol brilhava forte na enseada e nas clareiras dos ranchos e as noites eram iluminada por lamparinas abastecidas com óleo de semente de mamona extraído da moenda de peroba rosa, fabricada no enxó, instalada no galpão dos fundos.
Colhi a mandioca, deixei de molho no tacho de barro queimado e desci até o Panema, onde o Pirayu briga com a linhada, a intenção era preparar um ensopado para a refeição do dia. A correnteza corria nervosa quando ouvi o primeiro estampido de pólvora, enquanto um Guarani com o peito sangrando correu em minha direção, ele morreu em meus braços enquanto eu tentava entender o que estava acontecendo. O aroma peculiar da pólvora cobriu o ambiente e a fumaça subiu além da árvore mais alta da floresta, neste momento percebi uma enorme movimentação na parte alta do rio.
Era uma comitiva gigantesca, comandada por um senhor de cabelos longos, barba por fazer e com o peito protegido por um colete de couro bovino, que mais tarde fiquei sabendo tratar-se de um bandeirante de nome Antonio Raposo Tavares. Eram cerca de dois mil índios e novecentos brancos e mamelucos. pude perceber que cada grupo de vinte índios flecheiros havia um branco no comando, armado com trabucos. A missão era capiturar índios Guarani que seriam levados amarrados até São Paulo para servirem como escravos das famílias mais abastadas e destruir os redutos evangelistas espanhóis e consequentemente alargar os domínios de Portugal além do tratado de Tordesilhas.
Minha preocupação, após a passagem do bando, era subir rapidamente até o rancho para ver se estava intacto e para meu conforto, tanto o rancho, o galpão e a roça estavam conservados, mas meus animais foram saqueados, provavelmente para servirem de alimento para a tropa. Enquanto observava o interior do rancho, ouvi um ruído vindo do galpão, tratava-se de cinco índias acompanhadas de seus bebês que buscaram abrigo no local, uma delas já viúva sem saber e as outras com seus esposos sequestrados e ali permaneceram um período até que a vida se restabelecesse e pudessem voltar em segurança para a aldeia.
Alguns dias depois resolvi ir até a Missão dos Jesuítas na intenção de oferecer ajuda e comprar alguns suínos e aves, mas lá chegando me deparei com um cenário aterrorizante. Tudo havia sido destruído, a capela e os abrigos ainda fumegavam no solo e muitos corpos apodreciam espalhados pelo campo de batalha, índios evangelizados, crianças e padres que guardavam suas feridas mortais por baixo de suas vestimentas negras. Não restava mais nada, além de um território que passou a pertencer a Coroa Portuguesa.
Depois eu conto o resto.
Por Zé Roberto Montagner

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