Jornal Correio Paulistano março de 1890
Fartura
Ancioso esperava por uma formidável
sarabanda, até que afinal encontrei-a no Diario Mercantil, de 13 do corrente, na
qual seu autor derrama nauseabunda bílis sobre minha individualidade. Já a
alguns annos aqui moro e não sabia
existir entre nós um typo alcunhado chinfrim. Francamente, seu chinfrim! mecê
aqui é cousa nova, mesmo muito nova ! logo que temos a infelicidade de tão
péssima acquisição, por professar o officio de adulador, que tanto é baixo para
quem adula, como vil para quem é adulado, vou lhe passar uma esfrega a ver se
para o futuro emprega-se em cousa de mais utilidade.
Começou o miserável e infame adulador
dizendo que denunciei um prestante cidadão que por si se recommenda pelos
serviços prestados a localidade e que não posso provar, que sou rapinante de
bens de inventários, de lazarento e obras pias, que mudo o nome, conforme me
convém; chamou-me de africano, despediu-se até o tempo de pagar os músicos e
assignou(chinfrim ).
Muito bem, seu chinfrim! muito bem !
Agora o congo. arregale os olhos, arrebite as fossas, limpe os ouvidos e preste
bem atenção e veja se isso lhe convêm .
Pela assignatura de teu aranzel, ve-se
que o nome é digno de quem o escreve e devolvo-lhe intacto. Se denunciei o teu
muito sympático cidadão, tive razão de sobra para assim proceder.
Pois se alardea tantos serviços feitos
pelo teu prestante cidadão, como não aparecem elles antes de vir pra cá residir
a família Ribeiro? Responda miserável?!
Se és homen, que duvido ser, responda me
por favor ! Não nego que teu prestante cidadão tenha feito alguma cousa, más
não tanto quanto allegas.
Não, não é. Entre nós tem um outro
prestante cidadão, ( não declino o nome para não ofender sua modéstia ) que
muito tem feito em beneficio desta localidade e seus serviços não
apparecem porque não gosta de bajulação.
As provas da denuncia, peça permissão ao pai da paz, mas se com efeito exige-as
.....
O inventario que alludes, os bens a mim
confiado estão intactos e ao juiz, ou a quem pertencer entregal-os - ei no dia
que me forem exigidos e não tenho lhe
que dar satisfação .
As obras pias....Quaes são elas? A
pedido de um amigo, mandei tirar madeira para uma sachristia; o Baptista de
Alvarenga deu 10$000 e andou em 71$800, quem pagou o resto?
Pediram-me para fazer uma subscrição
para casa de João Gomes (morphético); tirei 15$500 e a madeira andou
em 23$100, foi tu adulador quem pagou-me
o restante? Provarei com documentos, se preciso fôr.
Quanto a mudar de nome, informe-se do
commércio de São Paulo e Rio de Janeiro e mais logares que sou conhecido. A
musica...A musica! Offendo minha própria modéstia, mas é preciso. Quaes são os
músicos que tenho deixado de pagar, quando raras vezes recebemos uma pequena
retribuição por nossos trabalhos? Respondam os próprios músicos, a quantos anos
lecciono neste logar sem receber o menor ordenado, quer do povo, quer de meus
allunos? Quem paga as despezas de luz, papel e musica?
Sem duvida, tu vil adulador, é quem faz
toda esta despezas? Os homens honrados daqui e Rio Verde, sabem que quase nunca
recebo dinheiro, outra qualquer cousa pelos serviços da musica e quem sabe se tu miserável chinfrim já tem
recebido destes favores, para hoje, só com o fim de adular, atira-me ao rosto
toda sorte de infamia !! Em nada offendeu-me chamando-me negro; pois orgulho-me
em descender desta nobre e infeliz raça que tem a coragem precisa para
sustentar o que diz e assignar aquillo que escreve e não como tu réptil
asqueroso! animal immundo ! assassino da
probidade alheia ! tu esta no teu papel, patife !
Tenho compaixão de ti !! va para a
valla, de parceria com o lixo, que lá estará em seu logar.
Como descendente da Africa, tenho por
divisa a franqueza; não sustento polemica com gente mascarada e se quiser
discutir minhas glórias, arranque a mascara que quero ter o prazer de escarrar
e lhe cuspir na cara, e se tu for alguma cousa que preste iremos ao campo lavar
a honra, o que não temo porque um pulso todo africano, próprio para dar e
aparar uma cutilada.
Se ainda tem um restinho daquilo que
todo homem deve ter em grande quantidade, assigne o que escreve, do contrário
podes dizer o que quiser, que nada lhe
responderei porque não sei discutir com homem sem caráter.
Fartura, 23 de março de 1890
Hylario Nogueira de Azevedo
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