quarta-feira, 22 de agosto de 2018


                                                                   Jornal Correio Paulistano março de 1890

                                                                                            Fartura

Ancioso esperava por uma formidável sarabanda, até que afinal encontrei-a no Diario Mercantil, de 13 do corrente, na qual seu autor derrama nauseabunda bílis sobre minha individualidade. Já a alguns annos  aqui moro e não sabia existir entre nós um typo alcunhado chinfrim. Francamente, seu chinfrim! mecê aqui é cousa nova, mesmo muito nova ! logo que temos a infelicidade de tão péssima acquisição, por professar o officio de adulador, que tanto é baixo para quem adula, como vil para quem é adulado, vou lhe passar uma esfrega a ver se para o futuro emprega-se em cousa de mais utilidade.
Começou o miserável e infame adulador dizendo que denunciei um prestante cidadão que por si se recommenda pelos serviços prestados a localidade e que não posso provar, que sou rapinante de bens de inventários, de lazarento e obras pias, que mudo o nome, conforme me convém; chamou-me de africano, despediu-se  até o tempo de pagar os músicos e assignou(chinfrim ).
Muito bem, seu chinfrim! muito bem ! Agora o congo. arregale os olhos, arrebite as fossas, limpe os ouvidos e preste bem atenção e veja se isso lhe convêm .
Pela assignatura de teu aranzel, ve-se que o nome é digno de quem o escreve e devolvo-lhe intacto. Se denunciei o teu muito sympático cidadão, tive razão de sobra para assim proceder.
Pois se alardea tantos serviços feitos pelo teu prestante cidadão, como não aparecem elles antes de vir pra cá residir a família Ribeiro? Responda miserável?!
Se és homen, que duvido ser, responda me por favor ! Não nego que teu prestante cidadão tenha feito alguma cousa, más não tanto quanto allegas.
Não, não é. Entre nós tem um outro prestante cidadão, ( não declino o nome para não ofender sua modéstia ) que muito tem feito em beneficio desta localidade e seus serviços não apparecem  porque não gosta de bajulação. As provas da denuncia, peça permissão ao pai da paz, mas se com efeito exige-as .....
O inventario que alludes, os bens a mim confiado estão intactos e ao juiz, ou a quem pertencer entregal-os - ei no dia que me forem exigidos e não tenho  lhe que dar satisfação .
As obras pias....Quaes são elas? A pedido de um amigo, mandei tirar madeira para uma sachristia; o Baptista de Alvarenga deu 10$000 e andou em 71$800, quem pagou o resto?
Pediram-me para fazer uma subscrição para casa de João Gomes   (morphético); tirei 15$500 e a madeira andou em 23$100, foi tu adulador quem pagou-me  o restante? Provarei com documentos, se preciso fôr.
Quanto a mudar de nome, informe-se do commércio de São Paulo e Rio de Janeiro e mais logares que sou conhecido. A musica...A musica! Offendo minha própria modéstia, mas é preciso. Quaes são os músicos que tenho deixado de pagar, quando raras vezes recebemos uma pequena retribuição por nossos trabalhos? Respondam os próprios músicos, a quantos anos lecciono neste logar sem receber o menor ordenado, quer do povo, quer de meus allunos? Quem paga as despezas de luz, papel e musica?
Sem duvida, tu vil adulador, é quem faz toda esta despezas? Os homens honrados daqui e Rio Verde, sabem que quase nunca recebo dinheiro, outra qualquer cousa pelos serviços da musica  e quem sabe se tu miserável chinfrim já tem recebido destes favores, para hoje, só com o fim de adular, atira-me ao rosto toda sorte de infamia !! Em nada offendeu-me chamando-me negro; pois orgulho-me em descender desta nobre e infeliz raça que tem a coragem precisa para sustentar o que diz e assignar aquillo que escreve e não como tu réptil asqueroso!  animal immundo ! assassino da probidade alheia ! tu esta no teu papel, patife !
Tenho compaixão de ti !! va para a valla, de parceria com o lixo, que lá estará em seu logar.
Como descendente da Africa, tenho por divisa a franqueza; não sustento polemica com gente mascarada e se quiser discutir minhas glórias, arranque a mascara que quero ter o prazer de escarrar e lhe cuspir na cara, e se tu for alguma cousa que preste iremos ao campo lavar a honra, o que não temo porque um pulso todo africano, próprio para dar e aparar uma cutilada.
Se ainda tem um restinho daquilo que todo homem deve ter em grande quantidade, assigne o que escreve, do contrário podes dizer  o que quiser, que nada lhe responderei porque não sei discutir com homem sem caráter.

Fartura, 23 de março de 1890
                                                                                  Hylario Nogueira de Azevedo
      


Nenhum comentário:

Postar um comentário