Jornal o Estado de São Paulo outubro de 1892
VILLA DA FARTURA
Para que o publico possa avaliar a
infelicidade desta futurosa villa, ultimamente theatro das scenas as mais
revoltantes e criminosas, somos obrigados a dizer quem é o Sr Vicente de
Oliveira Trindade e Melo, actualmente arvorado em chefe politico e que é auctor
de todas as desordens e tropelias que se estão dando diariamente.
O Sr trindade que ninguém nunca poude
levar a sério, pelas suas truanesca figura e supina ignorância conseguiu por meio de intrigas, traições e
embustes assaltar as rédeas do governo local. tornando-se d´então para cá de um
jacobinismo medonho .
Nunca pretendiamos disser do Sr Trindade
o que sentíamos, já em respeito a sua infeliz família, já por prezarmos a nossa
dignidade: hoje porém, que vemos ser assassinado um cidadão inerme pela força
publica, hoje, que vemos cobardemente espirgardeado o povo, por sua alta
recreação e por ter as costas quentes, somos obrigados bem contra a nossa
vontade a dizermos alguma cousa sobre o despótico mandão que illudindo o
governo que fazer de tal infeliz villa um feudo de sua propriedade. Dissemos
que o Sr Trindade assumiu a direção do partido governista por meio da mentira, do
embuste e da traição e vamos provar: Assumindo o governo deste estado o Dr
Cesar, o Sr Luiz Ribeiro Salgado compadre do Sr Trindade e legítimo chefe do
partido republicano desta villa, prometteu ao Sr Cesar todo o seu apoio local. O
Sr Trindade porém, que desejava ser chefe para melhor satisfazer a sua louca
ambição, tratou desde logo de arrumar um meio para retirar o seu compadre dos
negócios públicos. A occasião veio em breve; tendo-se de proceder á eleição do
congresso estadoal o Sr Luiz Ribeiro Salgado procurou desde logo de envidar os
seus esforços em pról da chapa que fosse apresentada pelo governo, deixando
porém, mais tarde de dar qualquer passo por ter o Sr Trindade em quem
depositava inteira confiança asseverando que a eleição havia sido adiada, sendo
esta mentira unicamente descoberta na véspera da mesma. O leal companheiro fez
então constar ao governo que o Sr Luiz Ribeiro era opposicionista e que o
governo em nada podia contar com elle. Realizou-se assim o seu sonho dourado de
ser o mandão; a população, porém, soube dar- lhe o merecido desprezo, deixando-o
á margem, e foi assim que grande maioria do eleitorado por duas vezes deixou de
vir as urnas apezar de governista, unicamente para evitar o contacto com o
pequeno dictador que vendo-se sozinho recorreu a toda sorte de crimes para
apresentar um resultado qualquer nas eleições procedidas, afim de mostrar o seu
prestigio. Não contente porém, para melhor consolidar o seu valor moral, sem
ser o juiz de paz do anno ou achar-se em exercício demitiu o escrivão
legalmente nomeado e empossado; e como esse se recusasse a entregar o archivo
mandou chamar o delegado de Rio Verde alferes José Severiano Mendes afim de
auxilia-lo em suas tropelias, tomando á força o cartório sem respeito algum a
inviolabilidade do domicilio.
O juiz de paz em exercício levou então o
facto ao conhecimento do Dr juiz de direito da comarca e mandando este ser
entregue o cartório só na terceira vez poude ser obedecido pelo escrivão
nomeado pelo Sr Trindade. Não satisfeito ainda com esses desmandos, quis também
nas eleições municipaes fazer votar os eleitores ultimamente alistados e sendo
isso impugnado pelas mesas de
conformidade com o que havia determinado o governo pelo ``Diário Official´´ .
Gritou publicamente que o ``Diário
Oficial´´era um papel sujo que o governo fazia e até notas falsas !! e alli
havia de fazer o que quisesse porque quem mandava era ele. Estes factos que
deixamos expostos sabemos que já foram levados ao conhecimento do governo por
intermédio do Sr major José Cassimiro da
Rocha, sendo então demittidas as auctoridades policiaes existentes e nomeadas
para os mesmos cargos cidadãos de confiança do povo, havendo por essa occasião
uma grande manifestação popular, sendo levantados muitos vivas ao Dr Bernardino de Campos. Por
motivos que porém que não sabemos explicar foram cassadas as nomeações feitas e
reintegrados os cidadãos que haviam sido demitidos, porque mandou o Sr Trindade chamar outra vez o delegado
alferes Mendes e procurando um pretexto para desfeitear o major Cassimiro
mandou invadir no dia 20 do mês findo a sua casa, a titulo de prender um
italiano, sendo a exma. esposa daquele cidadão atirada ao chão, maltratada e
ferida e o major Cassimiro atrozmente injuriado.
Depois deste factos sahiu para a rua o
alferes Mendes acompanhado da força policial, fazendo os maiores desatinos e
desmandos, retirando-se mais tarde com a força para a casa do Sr Trindade aonde
se aquartelou-se com a sua concubina!....
Estes factos foram levados ao
conhecimento do delegado de Piraju que immediatamnete officiou ao alferes
Mendes fazendo-lhe ver que elle achava-se em termo extranho e pedindo- lhe para
não prosseguir com suas tropelias.
Este officio porem veio produzir efeito
contrario; os desmandos e injurias redobraram, sofrendo diversos cidadãos
gravíssimos vexames. O povo mandou então uma comissão de dous cidadãos, afim de
entende-se com o alferes Mendes ,sendo nesta ocasião um deles assassinado pela
força publica o cidadão José Theodoro Franco e atirado o outro pelo próprio
alferes, não acertando porém o tiro. Deantes destas cenas de vandalismo o povo
finalmente exaltou-se e repeliu a aggressão insólita feita a seus direitos. Agora
perguntaremos nós: quem é o responsável por todos estes crimes praticados? È
simplesmente o Sr Trindade, que é um homem sem prestigio, sem moral e sem
patriotismo. Continuaremos.
Villa da Fartura 2 de outubro de 1892
Hylário Nogueira
Correio Paulistano
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