quarta-feira, 22 de agosto de 2018




                                                       Jornal o Estado de São Paulo outubro de 1892
                                                                             VILLA DA FARTURA

Para que o publico possa avaliar a infelicidade desta futurosa villa, ultimamente theatro das scenas as mais revoltantes e criminosas, somos obrigados a dizer quem é o Sr Vicente de Oliveira Trindade e Melo, actualmente arvorado em chefe politico e que é auctor de todas as desordens e tropelias que se estão dando diariamente.
O Sr trindade que ninguém nunca poude levar a sério, pelas suas truanesca figura e supina ignorância  conseguiu por meio de intrigas, traições e embustes assaltar as rédeas do governo local. tornando-se d´então para cá de um jacobinismo medonho .
Nunca pretendiamos disser do Sr Trindade o que sentíamos, já em respeito a sua infeliz família, já por prezarmos a nossa dignidade: hoje porém, que vemos ser assassinado um cidadão inerme pela força publica, hoje, que vemos cobardemente espirgardeado o povo, por sua alta recreação e por ter as costas quentes, somos obrigados bem contra a nossa vontade a dizermos alguma cousa sobre o despótico mandão que illudindo o governo que fazer de tal infeliz villa um feudo de sua propriedade. Dissemos que o Sr Trindade assumiu a direção do partido governista por meio da mentira, do embuste e da traição e vamos provar: Assumindo o governo deste estado o Dr Cesar, o Sr Luiz Ribeiro Salgado compadre do Sr Trindade e legítimo chefe do partido republicano desta villa, prometteu ao Sr Cesar todo o seu apoio local. O Sr Trindade porém, que desejava ser chefe para melhor satisfazer a sua louca ambição, tratou desde logo de arrumar um meio para retirar o seu compadre dos negócios públicos. A occasião veio em breve; tendo-se de proceder á eleição do congresso estadoal o Sr Luiz Ribeiro Salgado procurou desde logo de envidar os seus esforços em pról da chapa que fosse apresentada pelo governo, deixando porém, mais tarde de dar qualquer passo por ter o Sr Trindade em quem depositava inteira confiança asseverando que a eleição havia sido adiada, sendo esta mentira unicamente descoberta na véspera da mesma. O leal companheiro fez então constar ao governo que o Sr Luiz Ribeiro era opposicionista e que o governo em nada podia contar com elle. Realizou-se assim o seu sonho dourado de ser o mandão; a população, porém, soube dar- lhe o merecido desprezo, deixando-o á margem, e foi assim que grande maioria do eleitorado por duas vezes deixou de vir as urnas apezar de governista, unicamente para evitar o contacto com o pequeno dictador que vendo-se sozinho recorreu a toda sorte de crimes para apresentar um resultado qualquer nas eleições procedidas, afim de mostrar o seu prestigio. Não contente porém, para melhor consolidar o seu valor moral, sem ser o juiz de paz do anno ou achar-se em exercício demitiu o escrivão legalmente nomeado e empossado; e como esse se recusasse a entregar o archivo mandou chamar o delegado de Rio Verde alferes José Severiano Mendes afim de auxilia-lo em suas tropelias, tomando á força o cartório sem respeito algum a inviolabilidade do domicilio.
O juiz de paz em exercício levou então o facto ao conhecimento do Dr juiz de direito da comarca e mandando este ser entregue o cartório só na terceira vez poude ser obedecido pelo escrivão nomeado pelo Sr Trindade. Não satisfeito ainda com esses desmandos, quis também nas eleições municipaes fazer votar os eleitores ultimamente alistados e sendo isso impugnado pelas mesas  de conformidade com o que havia determinado o governo pelo ``Diário Official´´ .
Gritou publicamente que o ``Diário Oficial´´era um papel sujo que o governo fazia e até notas falsas !! e alli havia de fazer o que quisesse porque quem mandava era ele. Estes factos que deixamos expostos sabemos que já foram levados ao conhecimento do governo por intermédio do Sr major  José Cassimiro da Rocha, sendo então demittidas as auctoridades policiaes existentes e nomeadas para os mesmos cargos cidadãos de confiança do povo, havendo por essa occasião uma grande manifestação popular, sendo levantados  muitos vivas ao Dr Bernardino de Campos. Por motivos que porém que não sabemos explicar foram cassadas as nomeações feitas e reintegrados os cidadãos que haviam sido demitidos, porque mandou  o Sr Trindade chamar outra vez o delegado alferes Mendes e procurando um pretexto para desfeitear o major Cassimiro mandou invadir no dia 20 do mês findo a sua casa, a titulo de prender um italiano, sendo a exma. esposa daquele cidadão atirada ao chão, maltratada e ferida e o major Cassimiro atrozmente injuriado.
Depois deste factos sahiu para a rua o alferes Mendes acompanhado da força policial, fazendo os maiores desatinos e desmandos, retirando-se mais tarde com a força para a casa do Sr Trindade aonde se aquartelou-se com a sua concubina!....
Estes factos foram levados ao conhecimento do delegado de Piraju que immediatamnete officiou ao alferes Mendes fazendo-lhe ver que elle achava-se em termo extranho e pedindo- lhe para não prosseguir com suas tropelias.
Este officio porem veio produzir efeito contrario; os desmandos e injurias redobraram, sofrendo diversos cidadãos gravíssimos vexames. O povo mandou então uma comissão de dous cidadãos, afim de entende-se com o alferes Mendes ,sendo nesta ocasião um deles assassinado pela força publica o cidadão José Theodoro Franco e atirado o outro pelo próprio alferes, não acertando porém o tiro. Deantes destas cenas de vandalismo o povo finalmente exaltou-se e repeliu a aggressão insólita feita a seus direitos. Agora perguntaremos nós: quem é o responsável por todos estes crimes praticados? È simplesmente o Sr Trindade, que é um homem sem prestigio, sem moral e sem patriotismo. Continuaremos.

Villa da Fartura 2 de outubro de 1892
Hylário Nogueira
Correio Paulistano










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