terça-feira, 7 de dezembro de 2021

 

 

                                                            Topografia

 

Acho fascinante a geografia da nossa região. Num mesmo bairro rural temos diversos tipos de solo, serras, serrinhas, vales, e terra roxa, terra arenosa, terra pedregosa, terra argilosa. Muitas vezes até num mesmo sítio. E as águas, então, temos muitas nascentes que formam riachos e vão para a represa.

Domingo estava na casa dos meus pais, conversando com eles e meus irmãos. E meu pai Mário, como sempre contando histórias e pontuando sobre suas observações da natureza.

Falando sobre a estiagem que há vários anos nossa região vem sofrendo, com a represa baixando cada vez mais, e ele dizia que a chuva só vem para molhar mesmo quando vem do sul, dos lados do Paraná. Quando vem de cima é chuva fraca. E minha mãe perguntou porque ele fala “de cima”. E ele disse que é porque as águas sempre correm do leste para o oeste, aqui na Barra Seca. E realmente é assim mesmo. Os ribeirões sempre correm para os lados da ponte da divisa (ponte Fartura – Carlópolis). E eu nunca tinha prestado atenção nisso.

E falando em falta d’água, a conversa virou para poço. E ele lembrou de quando tinham perfurado o poço da casa dele, que foi seu avô Inácio Ribeiro Palma que tinha mandado furar, que nunca secou e diferentemente das águas dos riachos, a mina lá do fundo do poço vem do oeste! E que seu tio Vicente tinha feito um poço no sítio dele, aqui do lado, mas fez mais no alto, e o poço era muito fundo, e a água tinha cheiro de querosene. Aliás, hoje o poço não existe mais, foi soterrado, porque era perigoso, muito fundo.

E teve o caso de um poço que o Isaac Ribeiro Garcia mandou perfurar perto da casa deles. A fazenda era depois da fazenda do Juvenal Garcia, casado com a tia Júlia, irmã da vó Luiza.

E vó Luiza, era comadre da Dona Tonica, esposa do Isaac. E ela foi lá passear lá, num domingo, e levou as crianças, meu pai Mário, a tia Julieta, tia Cota, tio Zezito, e conversa vai, conversa vem, foram lá para fora ver os animais, e tinha um poço cercado com arame farpado e a vó perguntou para Dona Tonica o porquê.

E ela contou que o Isaac tinha mandado perfurar porque a mina d’água era longe e queriam um poço na porta da casa, mas o Júlio preto, que trabalhava para eles, estava escavando e quando já tinha cavado bastante, desmaiou! E pensaram que ele tinha passado mal, mas depois que puxaram ele, e melhorou, ele disse que tinha sentido um cheiro muito forte, cheiro de gasolina. Talvez o desmaio foi porque inalou gás.

E faz sentido mesmo essa história de cheiro de querosene e gasolina. Lembramos de quando o tio Beleco (Flávio Ribeiro Garcia) contou que pegou fogo num pasto dele e ficou vários dias queimando, mesmo numa área encharcada, terra que plantavam arroz.

E teve uma época que o governado Paulo Maluf criou a Paulipetro e vieram uns técnicos pesquisar e tiraram amostras no bairro da Serrinha, lá nas fazendas dos irmãos Ribeiro Garcia. Pesquisaram em vários lugares. Em Piraju lembro que a amostra foi no bairro dos Britos.

Pena que a Paulipetro não progrediu, pois se tivesse dado certo, nossa região estaria mais rica com os royalties do petróleo.

          

                               Mulher Arrojada

 

Era nossa vizinha de sítio. Seu marido era primo do meu pai. Um primo bem mais velho, sobrinho da vó Luíza Ribeiro Palma. Eles eram um casal uns trinta anos mais velhos que meus pais). Ela era de uma família pioneira que chegou a Fartura junto com os Ribeiro Palma e Ribeiro Garcia, no final do século XIX, vindos de Santa Rita do Passa Quatro e compraram terras aqui.

Na verdade, somos descendentes de portugueses que vieram para o Brasil e foram morar em Minas Gerais e depois uma parte das famílias vieram para São Paulo (São Simão, Santa Rita do Passa-Quatro e alguns para desbravar as terras de Fartura).

Era nossa vizinha de sítio. Seu marido Oliveiro Ribeiro Palma comprou o sítio que era da tia Nica (Maria Honória) e do tio João Gualberto.

Seu nome era Brasilina Bento de Castro e era irmã da tia Sebastiana, casada com tio Vicente Ribeiro Palma; da Izaura casada com Pedro Bicudo; do José Manuel, pai do Zezinho Manuel; do Pedro Bento, casado com a Lurdes Ribeiro Palma (sogros da Elza); da Maria Ursulina, casada com o Francisco de Goes; do Manuel Simão, casado com Brasilina Alves; e do João Bento de Castro (farmacêutico), casado com a Brígida Andrade . Dizem que a família Bento de Castro chegou a Fartura junto com os Ribeiro Palma e Ribeiro Garcia, vindos de Santa Rita do Passa Quatro e compraram terras aqui.

O marido da Dona Bilica vivia brigando com meu pai porque queria comprar o sítio, isso quando a gente era criança. Mas quando viu que meu pai não ia vender de jeito nenhum, sossegou.

Dona Bilica era amiga de todos do bairro e tia de muitos. Gostava de cuidar dos doentes e das mulheres grávidas. Gostava de ajudar nos partos e quando não tinha parteira na hora, ela mesma fazia o parto. Mas nunca foi parteira da minha mãe, só auxiliava no pré-natal.

Sempre ia passear em casa e um dia ouvi ela falar: Lurdes dá a Cidinha para mim?

Nossa, fiquei com um medo enorme! Quando minha mãe estava para dar a luz ao João Antônio, ela veio a noite ver minha mãe, para ver se estava na hora de chamar a parteira. Já era umas dez horas e ela quis ir embora. Então pediu para meu pai um tição que estava aceso no fogão e pediu também para deixar eu ir junto com ela, de companhia.

Não queria ir, tiveram que me agradar muito. Até hoje lembro do quanto demorei para dormir!

Também teve o dia que ela foi lá em casa fazer remédio para o braço quebrado do Gerson. Ela pegou ovos e socou no pilão. Disse para minha mãe que o bom mesmo era acrescentar um ovo choco. Mas minha mãe não deixou. Então ela socou três ovos com casca, acrescentou leite de cabra, coou, adoçou e deram para o Gerson beber....

Outra coisa que era usado no bairro como remédio para acne eram caracóis (lesmas de caramujo). Tinha muitos nas roças de milho, se pareciam com escargots , e eram grandes. Eu costumava brincar com os caramujos depois que a lesma ia embora ou morria, não sei. Eram muito bonitos. Então, quando eles estavam vivos, a pessoa que tivesse acne era para pegar um, passar aquela baba no rosto e depois soltar. Achavam que era simpatia, mas pelo jeito era remédio. Meu pai disse que usou pois tinha muita acne. Deve ter sido bom porque não ficou cicatriz! Recentemente uma pessoa da família foi passear na Itália e já conhecia essa estória. Não é que achou na loja de cosméticos um feito à base de baba de lesma? O nome era “ crema viso ala lumaca” que significa: creme para rosto feito de caracol.

 

Hoje, lembrando de nossa querida vizinha que viveu muitos anos, penso que ela foi muito corajosa. Naquela época as mulheres tinham que ficar restritas ao lar, ou tinham que sair sempre acompanhadas pelo marido ou filhos. E ela foi arrojada. Saia, ajudava, ensinava a quem quisesse aprender. Como dizem: não veio ao mundo a passeio. Fez diferença.

E mesmo na velhice, vinha nos visitar, sempre com um porretinho, caso tivesse que se defender de algum cachorro.

 

 

 

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                          Interação com animais

 

Estava conversando com meus pais sobre os animais e a interação deles conosco. Falaram do enxu de abelhas que tinha no beiral da casa deles e que não picavam ninguém. Mas um dia chegou um moço trazendo o convite de casamento e levou muitas picadas! 

Meu pai lembrou um caso que ocorreu com tio Pedro, avô do  Renato Ribeiro Palma, Foi na época em que ele quebrou a perna. Ele era pecuarista e tinha um retiro de leite. Como não podia trabalhar, seus filhos o substituíram. Acontece que tinha uma vaca que só ele conseguia manejar. Os filhos no primeiro dia não conseguiram. Então lembraram que ele ia de madrugada para o retiro sempre com um casaco marrom e um chapéu. Então na manhã seguinte um deles usou o traje e, dito e feito, conseguiu realizar o trabalho! E foi assim até ele sarar.    

 

                                 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                  O quase pracinha

 

O quase "pracinha" Alfredo Ribeiro Garcia, filho do José Ribeiro Garcia, (Zé Mingo).

Fartura teve um grupamento de soldados que lutaram na 2ª. Guerra Mundial e são lembrados através do obelisco que fica à praça central. A Força Expedicionária Brasileira, também conhecida pela sigla FEB, foi a delegação militar enviada pelo Brasil à Europa para integrar as tropas dos países aliados (Estados Unidos, Inglaterra, União Soviética, Resistência Francesa etc.) contra as Potências do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) durante a Segunda Guerra Mundial.

A FEB foi concebida em agosto de 1943. O Brasil permanecia neutro, pois era interessante para nós o comércio com os Estados Unidos e também com a Alemanha. Mas quando a Alemanha percebeu que o Brasil estava muito próximo dos EUA, mandou seus submarinos atacarem nossos navios, na costa do nordeste. Aí não teve jeito, Getúlio Vargas teve que entrar na guerra. Então foi criada a FEB e muitos jovens brasileiros foram batalhar no front da Itália.

Os jovens foram convocados e tinham de ir se alistar. Em Fartura não foi diferente. Todos os jovens foram. De Fartura pegavam o ônibus e iam até Bauru/SP onde faziam a inspeção de saúde e depois o alistamento militar.

Meu pai, Mário Palma, conta que um dos jovens era o Alfredo Ribeiro Garcia. Sua mãe chorou e rezou muito para que seu filho não fosse à guerra e suas orações foram atendidas.

Ele morava na fazenda (Bairro Serrinha) e tinha de ir a Fartura de charrete. Quando pegou o cavalo e estava atrelando o cavalo ao varal da charrete, uma correia de couro apertou seu polegar para dentro e não voltou mais ao estado normal (parecia que estava com uma câimbra que não passava). Chegou a Fartura, deixou a charrete e o cavalo na casa de seu pai, tomou o ônibus e foi para Bauru, juntamente com os outros jovens.

Chegando ao quartel, o oficial responsável pela vistoria de saúde, viu seu polegar torto e disse: você está dispensado, como vai manusear uma arma com o polegar assim?

Voltou para Fartura, dormiu lá, e no dia seguinte, colocou o cavalo na charrete e foi para a fazenda.

Para surpresa geral, quando ele desarreou a charrete e soltou o cavalo no pasto, seu dedo voltou ao normal. Todos diziam que foi a fé de sua mãe que o livrou de ir para a guerra !

 

                                          

 

 

 

 

 

 

 

     

     Fartura, Barra Seca, Guaiuvira e a boa prosa.

 

Na década de 1970, houve um aumento na plantação de cafezais no município, não sei se por incentivo do governo federal ou por iniciativa da Cooperativa dos Cafeicultores. Engraçado, era tempo de ditadura militar, todos falam que era proibido ações associativas, mas foi naquela época que o cooperativismo prosperou aqui.

Meu pai, Mário Palma, e quase todos os cafeicultores da região eram cooperados. E foi um tempo bom, pois davam muita assistência técnica, tanto indo nos sítios, quanto promovendo encontros na cidade.

E no sítio que meu pai recebeu de herança, de terra roxa, plantou 3 alqueires de café, com a ajuda da minha mãe e dos meus irmãos, todos crianças. E o cafezal estava bonito, bem adubado, produzindo.

Então, veio um pessoal que estava arregimentando proprietários rurais daqui para levar ao Mato Grosso para comprar terras. E falavam que um alqueire daqui comprava muitos lá. E fizeram propaganda, venderam passagens com a hospedagem inclusa, e lá foi meu pai e todos seus conhecidos, muitos da Cooperativa. E ele conta que foi uma viagem boa, todos com muita esperança, e conversaram muito pelo caminho.

Numa das paradas pelo caminho para o jantar, eles estavam conversando e na roda de conversa estava um homem do Bairro Guaiuvira, da família Gabriel. E na conversa ele contou para os amigos quando participou de um campeonato de mentiras (numa viagem de pescaria) e ganhou o campeonato!!!

Ele falou: eu contei uma verdade e todos pensaram que era mentira. Então explicou: lá na Guaiuvira, com seus muitos riachos e pontes, fui uma tarde pescar lambari perto da pontinha, pois embaixo dela tinha um lugar mais fundo e bom de pescar. E jogando a linha percebi que vinha um beija-flor para cima de mim…e não entendia. Peguei vários lambaris e o beija-flor me importunando. Então numa outra jogada de linha, não é que fisguei o beija-flor? O anzol enroscou na sua asa. Então percebi que embaixo da ponte havia um ninho de beija-flor e ele estava defendendo seus filhotes!

Até hoje, meu pai nos conta histórias dessa viagem ao Mato Grosso. Mas ele não gostou de lá. Conta que os levavam sempre em grupos e não os deixavam andar à vontade, mas ele deu uma escapada e viu que a terra parecia boa embaixo da mata, mas na área que havia sido desmatada, era uma terra muito arenosa. Percebeu que teria que gastar muito com adubo.

Voltou decidido a não trocar seu sítio por terras lá longe. Avisou o corretor que não teria negócio. Passado um mês recebeu a visita do corretor e o homem veio bravo, pressionando, falando que ele teria que comprar as terras lá no MT, que a viagem tinha sido para isso, etc. e tal...E meu pai ponderando que ele havia pago as passagens conforme combinado, que não tinha assinado nenhum papel dizendo que faria negócio, e até minha mãe teve que entrar no meio da conversa para pôr o corretor para correr...

E lá na Barra Seca conseguiram viver muito bem com os frutos do cafezal, com muito trabalho, mas também muitas alegrias, graças à Deus! E até hoje moram no mesmo sítio e cultivam o café, com muitos talhões já replantados.

 

                                         

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                   Futebol

 

Na primeira foto está o time de futebol do Bairro Barra Seca,

 entre 1930 e 40. O técnico é o Juvenal Garcia - está no canto superior direito

Nomes dos jogadores, começando no alto da esquerda para a direita: Julio Teixeira (Júlio da tia Nica), Arvelino Carroceiro, Inácio Palma , Juca Nogueira, Arlindinho Preto, e o técnico Juvenal Garcia (casado com a tia Júlia). Agachados 2 fileira Vicente Ribeiro Palma (pai do tio Fernando, do Inacinho, da Elza...), Dito Amaro, Zé Simão . 3 fileira João Ribeiro Palma, Benedito Ribeiro  Palma (goleiro - depois marido da Adelaide Garcia, pais da Cotinha, do Zezo, da Marta, da Mariinha, Madalena) e Helio Ribeiro da Fonseca (filho do Tiozinho e irmão da Irene).

Na segunda foto estão (do alto esquerda para direita)

O Zezo Palma, o Zezinho Prestes, Jonas, Fernando Ribeiro Palma (filho do tio Vicente), Sebastião Palma, Antônio Carlos Garcia Ribeiro (Nego), tio José Floriano Vieira - Zezito (técnico e está no alto à direita), embaixo o Inácio Ribeiro Palma (filho do tio Vicente), Luís Castro do Zé João, Joaozão Joa, o Zezinho Castro do Zé João e o Lauro Teixeira Garcia.

 

 

          

                       

                      Nhô Antônio e outros peões

Todas as casas no bairro tinham um puxadinho nos fundos, que era para os peões morarem (vieram para ocupar o lugar dos mineiros que tinham ido embora ou se casado). Tudo simples, nossas casas eram de barro e o quartinho deles também. Mas tinha fartura de comida e roupa lavada e passada. Eles vinham não sei de onde, rodavam o bairro, terminavam uma carpa de feijão aqui e já iam para outro sítio carpir outro. Nos fins de semana iam para a cidade. Reuniam-se com os outros peões e iam se divertir...lá gastavam seu dinheiro bebendo e comendo com os amigos. Ficavam por lá mesmo até domingo à tarde quando voltavam para trabalhar.

Era um rodízio de peões...e isso dava a eles uma vantagem: tinham muito conhecimento da vida, o que chamamos de conhecimento empírico. Todo ano, no verão apareciam furúnculos em nós todos. A gente chamava de tumor, e aparecia nos lugares mais inapropriados, principalmente no bumbum...como era difícil sentar para almoçar. Diziam que era por causa das mangas, que essa fruta tirava as impurezas que estavam no corpo e jogavam para a pele.

E também feridas....toda a criançada tinha, talvez por andar de bermuda e ser alvo fácil de picadas. Numa época, a minha perna do joelho para baixo era só feridas. E eram grandes, não saravam. Meu pai já tinha ido na Dona Irene, a farmacêutica que para nós era como se fosse médica, de tanto que ela acertava nos remédios, mas não acertou para as feridas. Já fazia um mês e nada de sarar.

Então veio um peão novo trabalhar em casa. Viu minha mãe passando o remédio e falou que o bom mesmo era fazer um chá forte de eucalipto cheiroso, e quando estivesse morninho lavar as feridas e deixar secando naturalmente. E ele foi buscar longe, trouxe e a semana todo me lavei com esse chá. E sarou!

                                   

                

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

         

           Nhô Antônio e outros peões parte 2

Também me lembro do Nhô Antônio. Eu tinha uns seis anos e ele já tinha os cabelos brancos. Usava uma barba comprida, não sei se é porque gostava ou porque não tinha ânimo de aparar. As unhas dos dois polegares também eram enormes, acho que ajudava no trabalho.

Lembro bem de uma vez, de tardezinha, quando estávamos brincando no terreirão. O milho tinha sido debulhado e sobre o terreiro estava o monte de sabugos. E nós, brincando de fazer prédios. E o Nhô Antônio olhando.

Então ele não se aguentou: agachou e ficou também brincando de fazer prédios. E ele nos ensinou uma nova técnica…ficamos admirados em saber que era possível fazer de outro jeito. E suas unhas grandes ajudavam, porque para um sabugo grudar no outro tinha que apertar bem, e as unhas dele eram próprias para isso. Ficamos brincando lá até a mãe chamar para a janta.

Lembrei dessa estória esta semana quando li um artigo sobre educação infantil. Depois de tanto tempo, algum pedagogo disse que é muito importante para o desenvolvimento intelectual da criança brincar na natureza, com caixas, pedaços de madeira, fazer comidinha de barro, subir em árvores, plantar uma semente e ver germinar...Tudo o que nós todos já fizemos quando criança....

 

 

                                  Barra Seca

 

Falando de várzeas, terras de arroz, “covas de mandioca”, lembrei-me de um caso curioso: uma vez o tio Beleco, pai da Regina Garcia Camargo, da Ana Claudia Ribeiro Garcia e ... foi por fogo num entulho perto de uma várzea e o terreno ficou dias pegando fogo. Depois disso, numa época em que o governo de São Paulo queria ter sua própria empresa de petróleo, passou fazendo sondagens por aqui, e no sítio do tio Beleco também teve sondagens.
O bairro tem vários tipos de solo: a terra roxa onde plantam café, a terra branca e pedregosa dos pastos, a terra argilosa que usam para a cerâmica....várzeas acho que não tem mais, ficaram todas alagadas.
Nosso bairro, hoje, está todo esburacado por conta da retirada de taguá para fazer tijolos. Taguá é o barro de olaria. Muitos caminhões, às vezes dia e noite, passam carregados. É um poeirão só. Ninguém mais aguenta. Já tem quatro crateras enormes!
O certo era pedir para o prefeito fazer uma ligação desses tiradores de terra com a estrada principal....para os moradores ficou péssimo ...passam pelo interior do bairro, quase no quintal das casas!
Se no bairro as terras fosse ainda só dos parentes, tudo ficaria mais fácil.
Também temos um problema com a água da chuva. Existe no meio do bairro uma lagoa e quando chove enche muito. Essa lagoa faz parte de um sistema de águas subterrâneas que são interligadas. A lagoa daqui se liga com a que fica na fazenda que era do tio Juvenal e escorre para a represa e com a mina d'água da tia Cotinha e Zezito. Antigamente, existia um canal de drenagem que jogava o excesso dessa água de chuva para o ribeirão que vai para a casa da tia Cotinha, hoje Zé Dito. Mas os terrenos às margens da estrada foram loteados e bloquearam a saída da água. Agora meu pai e o tio Fernando tem que conviver com a inundação....Coisas da vida



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                Colheita do Arroz

 

Às margens do rio Itararé existia uma várzea fértil, própria para plantar arroz. Essas terras faziam parte da fazendo do Senhor José Prioli, no bairro Barra Seca.
Os irmãos Ribeiro Palma (Vicente e Pedro) e os cunhados (João Gualberto e João Vieira) juntamente com os filhos, agregados e empregados, todo ano arrendavam as terras e faziam uma grande plantação de arroz, que depois seria dividida em partes iguais.
Junto aos agregados tinha um mineiro chamado Eugênio. Contam que os mineiros vinham em grupos para trabalhar no estado de São Paulo, para juntar dinheiro e voltar para Minas. A maioria era solteira e muitos se casavam aqui e não voltavam mais. E conseguiam mesmo juntar dinheiro, pois moravam e comiam na casa dos patrões. Poucas vezes trabalhavam por dia, gostavam mesmo era de plantar feijão por meação, pois feijão tinha preço. E quando vendiam seu feijão era uma festa: compravam bicicleta, relógio, roupas novas e ainda sobrava. E todos andavam armados com arma branca. Muitos traziam na cinta seu pequeno punhal.
Pois bem, chegando à época da colheita, foram todos lá trabalhar. Os mais velhos ficavam num lugar mais elevado, onde forravam o chão com uma lona, colocavam um tambor ou uma tábua e batiam o arroz, que caia sobre o encerado e depois era abanado e levado para as casas para terminar de secar no terreiro e ser guardado em grandes caixões de madeira. Posteriormente, para retirar a casca, era socado em pilões ou levado à cidade para ser beneficiado nas máquinas.
Então os mais velhos estavam no lugar seco batendo o arroz e os mais jovens cortando os feixes de arroz e carregando até o batedor. E um dia antes tinha chovido, o terreno estava um pouco molhado, havia algumas poças e eles vinham escorregando. Dizem que em terrenos de várzea se forma uns buracos, que eles chamavam de " covas de mandioca". É muito comum em áreas encharcadas, que também no Bairro Serrinha tinha um terreno assim.
Continuando, os buracos ainda estavam muito molhados, e eles iam escorregando. O Eugênio mineiro pisou num desses buracos, escorregou e caiu. Levantou muito bravo e falou: não sei porque vocês fazem tantos buracos aqui. Falaram que não tinham feito que era “cova de mandioca”. E ele falou: então aqui era um mandiocal?
Todos caíram na gargalhada....quase choraram de rir. O Eugênio ficou bravo! Tirou a faca da cintura e queria partir para a briga. Os mais velhos tiveram que o agradar muito... explicaram que aquilo era formado naturalmente em terrenos de várzea e que ele, Eugênio, não tinha obrigação de saber já que vinha de uma região seca, lá de Minas.

Nota: A fazenda inteira do José Prioli foi alagada com a formação da represa de Chavantes. Dizem que ele ficou doente dos nervos por muito tempo, devido a isso.)

 

 

 

 

 

                            A Reza do Terço

Como vocês sabem, nossa região foi palco de lutas na Revolução Constitucionalista de 1932. Os gaúchos apoiavam Getúlio Vargas e os paulistas não...Getúlio Vargas tinha assumido um governo provisório após um golpe de Estado em 1930, com a promessa de convocação de novas eleições presidenciais e uma nova assembleia constituinte. Mas nada disso ocorreu e ele governava através de decretos. Foi nesse clima que aconteceu a revolta dos paulistas, culminando com a morte dos estudantes na cidade de São Paulo (MMDC) em 23 de maio de 1932.

Então em 09 de julho de 1932 começou a Revolução. São Paulo contava com o apoio dos outros estados, conforme conversa com os dirigentes, mas efetivamente só teve apoio de Mato Grosso. E enquanto esperavam apoio, Getúlio organizou o exército e partiu para a luta contra o estado de São Paulo. São Paulo só teve a ajuda do estado do Mato Grosso, e depois de 3 meses de intenso combate, Getúlio Vargas derrotou os Constitucionalistas. Apesar da derrota, os paulistas ganharam politicamente, pois tiveram a nomeação de um interventor civil e em 1934 uma nova Constituição Federal (que não adiantou de nada porque em 1937 Getúlio Vargas cassou a Constituição, fechou o Congresso Nacional e se tornou Ditador até ser derrubado em 1945).

E o município de Fartura fica na divisa com o estado do Paraná, e os gaúchos usaram o caminho dos tropeiros para vir até São Paulo. E um dos caminhos dos tropeiros passava pelo bairro Barra Seca!!. Eles vinham do sul, atravessavam os estados de Santa Catarina e Paraná, atravessavam o rio Itararé e adentravam nosso estado.

Todos os que puderam fugir da revolução, fugiram. Contam que nosso bisavô Ignácio Ribeiro Palma não quis fugir. Ficou sozinho no sítio, escondido embaixo de um jacá grande, rodeado por espigas de milho nos fundos do paiol, enquanto os gaúchos saqueavam a casa e levaram porcos e galinhas.

Não foi diferente em Sarutaiá, onde meu avô Durvalino e a vó Erondina, que estava grávida do tio Roque, tiveram que se esconder no matão, no meio da grota. Também lá saquearam a fazenda da Dona Beatriz e levaram o que conseguiram para alimentar a tropa. E assim os gaúchos foram subindo e indo para o leste, passaram por Piraju, Avaré, Sorocaba até chegar a São Paulo.

A guerra foi motorizada. Teve um dia que um caminhão com o exército paulista estava descendo a estrada para chegar no rio Itararé e deu de cara com um caminhão dos gaúchos. Contam que foi tiro para todo lado e um gaúcho morreu.

O caminhão de São Paulo continuou para os lados do rio e o dos gaúchos foi para a cidade de Fartura. No alto do bairro Barra Seca, pararam e enterraram o soldado gaúcho morto e continuaram sua expedição até os arredores da cidade, onde fizeram um acampamento.

Depois de terminada a Revolução, os moradores do bairro fizeram uma igrejinha sobre o túmulo do gaúcho. Era costume no bairro quando o tempo estava muito seco ir a pé, em sinal de penitência, levar água para molhar os pés da cruz e rezar um terço, pedindo chuva.

Então um dia, depois do almoço, Dona Bilica e a madrinha Lazinha Arruda subiram o estradão e foram rezar lá. Contavam que chegando, molharam o pé da cruz e iniciaram a reza do Terço.

Dona Bilica puxava o Terço, ou seja, rezava por primeiro. Ela rezava e a madrinha respondia. Quando a madrinha ia responder, escutava muitas vozes rezando junto. E a dona Bilica rezava a parte dela sozinha, mas quando a madrinha ia rezar, a Dona Bilica também escutava as outras vozes. Contavam que terminado o Terço olharam para trás para ver quem estava rezando junto e não viram ninguém!!!

                                     

 

 

 

 

 

 

                               Zezito Vieira

Meu tio José Floriano, o Zezito, era mais velho que meu pai Mário. Não sei porque só assinava Vieira. Acho que os cartorários antigamente eram caprichosos, colocavam o sobrenome que queriam...ele deveria assinar Vieira Palma, assim como seus filhos deveriam assinar Garcia Vieira Palma.

Era um homem muito bonito. Lembro-me dele já com os cabelos brancos. Dizem que é uma característica dos Palma, ter os cabelos brancos precocemente.

Não cortava o cabelo curto. Tinha os cabelos lisos, brancos e ele os penteava para trás. Não sei como aquele cabelo liso parava arrumado, acho que era brilhantina. Os cabelos brancos contrastavam com seus olhos azuis. Andava sempre bem vestido, com calças e camisas limpas e bem cuidadas. Obra de sua esposa, a Cotinha (Maria Aparecida Garcia Ribeiro Palma). Tia Cotinha é muito limpa e prendada, sabe fazer crochê, costurar e cozinhar muito bem.

Tio Zezito plantava, com a ajuda de seus filhos e empregados, café e todo tipo de miudeza...amendoim, pipoca, batata doce. Ele mesmo não trabalhava na roça. Sentia-se mal e o médico dizia que eram problemas cardíacos. Eu hoje penso que seria depressão, pois a depressão também causa mal estar físico, como taquicardia. E ele viveu bastante! Então ele trabalhava como vendedor. Levava para a cidade frangos caipiras, amendoim, pipoca, o que tivesse para vender. Sem contar com o tempo que foi peixeiro, quando seus parentes eram pescadores e ele vendia os peixes na cidade. Nessa época ia acompanhado por seu filho José Romeu, pois ficavam preocupados em deixá-lo ir sozinho.

E ia bonito, de charrete, com suas camisas bem passadas e cabelo arrumado. E era muito festeiro. Lembro que quando eu era criança, tinha uns 8 anos, fui a um baile em sua casa. Eles faziam uma varanda coberta de lona e chamavam o sanfoneiro do bairro, Gebra, para tocar. E meu pai naquela noite tocou pandeiro.

E tinha um campo de futebol, no terreno cedido pelo Zezo, irmão da tia Cotinha. No bairro tem poucas áreas planas e aquela era própria e ficava bem na frente da casa do tio.

E aos domingos a gente se reunia lá para assistir aos jogos. Tinha o jogo dos adultos, times que vinham dos outros bairros como Pinheirinho, Caieiras, Guaiuvira, e depois tinha o jogo dos meninos. Tio Zezito montava um barzinho em sua casa, onde vendia refrigerantes e sorvetes que trazia da cidade e também doce de amendoim feito pela tia Cotinha.

Era tudo muito divertido. Eu tinha poucas amigas, pois a Maria Cecília já era moça e namorava o Zé Dito, e a Laura era bem criança. Eu tinha uma amiga, não lembro o nome, e nós gostávamos de assistir aos jogos em cima de uma goiabeira, que ficava na beira do campo. Aliás, a beira do campo era bem sombreada, com pés de manga, goiaba, coqueiros, tinha até pés de coqueiro carnaúba.

Ficavam todos à sombra assistindo aos jogos. E a criançada brincando. Lembro que um dia meu pai substituiu o juiz e ficou apitando o jogo. E eu fiquei orgulhosa, vendo meu pai correndo para lá e para cá, apitando. E também teve um dia que passei um perrengue... estava em cima da goiabeira, sentada num galho com minha amiga, vestida com bermuda, e nem vi quando uma taturana passou sobre minha perna. Nossa, de domingo para segunda-feira dei um trabalhão para minha mãe, pois fiquei com muita dor no local e febre alta...Demorei uns três dias para melhorar.

Tempos bons aqueles!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

         

                Pesca Profissional no Bairro Barra Seca

Nosso bairro se chama Barra Seca porque o ribeirão tinha uma parte de seu leito correndo no subterrâneo, devido a rochas calcárias, tinha a "barra" seca. Itararé também tem o mesmo significado. Em tupi-guarani “Ita” é pedra, “ra ré “oca. Rio subterrâneo através de rochas calcárias, ou pedra que o rio cavou, pedra oca.

Pois bem: A barragem da usina de Chavantes começou a ser construída em 1959 e terminou em 1971. A barragem da hidrelétrica foi construída a 3 km abaixo da foz do Rio Itararé, no rio Paranapanema no município de Chavantes, na divisa com o município de Ribeirão Claro/PR.

Durante o tempo da construção da barragem, os rios e ribeirões foram sendo represados e a água foi acumulando. Vários municípios do entorno do rio tiveram as áreas alagadas e os proprietários das terras foram indenizados. E tinha peixes em abundância.

Aqui no bairro morava, na fazenda do Sr. Pio Blanco, às margens da nova represa o Sr. Valdemar Nunes a quem todos chamavam de Valdemar Baiano. Era o ano de 1968 e ele convidou meu pai, Mário e seu primo Fernando Ribeiro para uma sociedade de pesca. Conversaram com algumas pessoas da cidade e ficaram sabendo que primeiro tinha que tirar a carteira de pesca profissional. Era tempo da ditadura militar e tudo precisava ser feito dentro da lei, ter autorização para pescar.

Então ficou combinado que o Fernando e o Valdemar iriam a Santos para a emissão dos documentos. E para eles foi um desafio, porque pouco tinham viajado, o lugar mais longe que tinham ido era Aparecida do Norte, em romaria.

Mas dizem que quem tem boca vai a Roma…pegaram o ônibus para São Paulo e foram. Lá se informaram e pegaram o outro para Santos. Tinham levado um dinheiro, então ficaram num hotelzinho próximo ao cais. Andando por lá, logo encontraram um sujeito que eles ainda não sabiam, mas era um cadeeiro, vivia sendo preso na cadeia por aplicar pequenos golpes e furtos. Conversando, ele ficou sabendo que os dois eram do interior e tinham ido tirar a carteira de pesca profissional. Ele se ofereceu para ajudar em troca de poder vir morar no interior. O Valdemar Baiano aceitou e falou que ele poderia ficar em sua casa.

Então ficou mais fácil. O Cearense, como era chamado, os levou para o despachante, onde pediram para tirar raio X do pulmão ², atestado médico e as fotos 3x4. O despachante marcou o dia para ir na capitania dos portos para a emissão das carteiras. Chegando lá, os dois jovens e tímidos, o capitão ainda tirou onda, debochou, falando por que precisariam de carteira de pesca para pescar na “barra seca” ...ainda se fosse barra molhada.

Com a carteira de pesca em mãos vieram embora trazendo junto o Cearense. Chegando aqui providenciaram a compra de um barco usado, em Presidente Epitácio; era um barco com motor estacionário, que fica no centro do barco, próprio para pesca, e redes na colônia de pesca de Paranapanema.

     Pesca Profissional no Bairro Barra Seca parte 2

Os pescadores de Paranapanema além de vender as redes, também os ensinou a tecê-las. Trouxeram então os fios, as chumbadas e as boias para a confecção de outras redes. Lembro-me bem de meu pai amarrando os fios nas árvores e tecer as redes.

E foram à pesca. Para nós foi difícil porque víamos nosso pai poucas vezes. Às vezes a pescaria durava três dias. Eles iam pescando e entregando para os compradores. Tinha um comprador fixo em Carlópolis/PR, Seu Miranda, que pegava os peixes na beira do rio. Também entregavam um pouco para o tio Zezito, que tinha tino comercial.

Diziam que ele era bom vendedor e vendia os peixes na charrete, na cidade; quando passava perto de uma mulher bonita dizia: olha o peixe, “peixe” e quando era homem ele falava: olha o peixe, “fresco”...

Para meu pai foi bom porque era mais fácil que trabalhar na roça e ele queria plantar café mas as terras que herdou ainda estavam em inventário e ele não sabia qual seria sua parte para poder plantar o café, que é uma planta perene.

E a pescaria para meu pai durou um ano....ficou cansado, porque pescavam e cozinhavam à beira do rio, mesmo que estivesse chovendo. Ele conta que pegaram várias tempestades estando no meio da represa e em uma delas o barco quase afundou, tambem tiveram uma parte das redes roubadas quando estavam acampados do lado do estado do Paraná e foi quando ele desistiu, mas os outros ainda continuaram.

A parte boa é que comemos muito peixe. Dava muita traíra, mandi, piava, campineiro e cascudo. Os maiores tinham comércio, mas os pequenos ficavam com os pescadores. Então num dia era sopa de cascudo, no outro mandi assado ou traíra frita....

O Cearense ficou mais ou menos seis meses e depois foi embora, nunca mais ouvimos falar dele. Mas aqui se comportou muito bem.

Depois disso, meu pai financiou a plantação de café e tudo deu certo, graças à Deus!

 

 

 

 

 

 

 

 

                             A Praça é Nossa!

Todo sábado, lá pelas quinze horas, os jovens do bairro saiam para ir à cidade. Iam a pé e às moças só era permitido ir se algum irmão fosse junto. Para minha mãe Lurdes e suas irmãs Lazinha e Conceição (Ceiça) não tinha problemas pois seus irmãos Roque e José Aparecido (Cido) gostavam de ir também.

Como é normal, os mais velhos acabavam se juntando e iam à frente e os mais novos atrás. Minha mãe, a Ceiça e seu irmão Cido eram da turma dos mais novos e ela gostava muito dele porque era um moço muito bom e não fazia fofoca para os pais. Assim ela e a Ceiça podiam segurar na mão

Saiam cedo porque tinham que chegar na cidade, trocar de sapatos, se refrescar tomando uma gasosa ou sorvete no bar do Seu Elias Freitas e da Dona Lurdes e depois ir à missa que começava às dezenove horas.

Isso de trocar os sapatos foi a tia Joaquina (Lola) quem ensinou. A tia Lola desde menininha foi criada pela tia Inácia, casada com o José Neves, fotógrafo muito conhecido na cidade. A tia Inácia era da sociedade farturense e educou muito bem a Lola e seu outro filho, o Toninho Neves. Então a tia Lola dava aulas de etiqueta para as amigas da Barra Seca. Minha madrinha Lazinha era uma costureira caprichosa e fazia belos vestidos, calças e camisas para a família. E a tia Lola ensinou que não adiantava estar bem vestido se o sapato não estivesse bem cuidado. A partir daí começaram a levar sapatos para trocar na cidade.

E naquele tempo não havia preconceito entre a turma da cidade e a dos sítios. Ainda não havia acontecido o êxodo rural, que ocorreu de forma intensa entre 1960 e 1990 devido a industrialização do país. E eles se sentiam muito à vontade. Então a praça era deles! Tinham muitos amigos na cidade, iam à missa, ao cinema, à praça.

Mas tinham que voltar…então lá pelas vinte e duas horas começavam a se reunir para voltar. E como eram jovens não sentiam cansaço pela longa caminhada, aproximadamente seis quilômetros.

Mas o caminho também tinha seus mistérios. Acontecia de ouvir assovio de Saci e para o Saci falavam: Vamos à missa de Natal? Era uma fórmula para afastar Sacis. E uma noite aconteceu um fato estranho: no bairro só tinha cães de trabalho como os paqueiros e perdigueiros, cães de colo era um luxo e ninguém tinha. E eles voltando, já tinham saído da estrada que vai para o Paraná e entrado na estrada do bairro quando perto da fazenda do Celso do Jó viram um cãozinho branco descer do barranco e veio passando por meio deles...sentiram um arrepio de medo e aquilo foi o assunto da semana!

 

 

 

 

                        Coincidência ou Feitiço?

Aconteceu depois de uma chuvarada. A estrada principal já tinha sido mudada para a divisa dos sítios da Luiza e do Pedro Ribeiro Palma e no novo traçado se formou uma cruz perfeita, uma encruzilhada.

Depois de uma chuvarada, o João da tia Nica estava passando quando viu algo brilhando bem no meio da encruzilhada. Desceu do cavalo para ver melhor e viu que era um machado que tinha sido enterrado com o corte para cima.

Pensou: não tenho medo de feitiços. Então desenterrou o machado, levou para casa, encabou e ficou usando. Após uns três meses do ocorrido, deu uma doença terrível em suas vacas. Ficaram enlouquecidas e se mordiam, ficando todas sangrando. O mesmo aconteceu com as vacas da Irene, nora do tio Pedro.

Chamaram o José Vidal, que morava em Fartura e era quase um veterinário, e ele reconheceu a doença: era raiva. Mas como podia ser, se é transmitida por morcegos vampiros que moram em cavernas ou casas abandonadas e não tinha nada disso por aqui? Não teve explicação.

O fato é que o rebanho teve que ser sacrificado, e chamaram a prefeitura para trazer retroescavadeira para enterrar todos os animais. Um trabalhão e um prejuízo enorme!

Todas as pessoas que lidavam com o rebanho e com o retiro do leite tiveram que ir para a cidade tomar a vacina contra raiva, assim como todos os cães do bairro.

Nunca mais aconteceu episódio semelhante.

 

 

                                  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                        Sexta à noite

Toda sexta-feira à noite os jovens se reuniam na casa do vô João e Luíza Ribeiro Palma para ouvir rádio e conversar. Vinham os filhos do tio Vicente, os da tia Nica, os filhos do vô Durvalino e ficavam conversando por bastante tempo e era muito divertido.

Na casa da vó Luíza tinha um poço e é o mesmo que até hoje o meu pai, Mário e nós usamos para beber água. Esse poço ficava a meio caminho entre a casa da Luíza e a casa do tio Vicente.

Num desses encontros, o João da tia Nica, chegou mais cedo. Falou para os primos: vou assustar o Inácio. A noite estava escura e ele ficou escondido atrás do poço e ia fingir que era um lobisomem. O Inácio veio se aproximando e quando chegou pertinho o João saiu engatinhando e gritando para os lados do Inácio.

O que o João não contava é que o Inácio estava armado com um pedaço de pau e deu-lhe uma paulada no braço que quase quebrou!

                             

 

 

 

                         

                                 Fogo Fátuo?

O tio Pedro Ribeiro Palma recebeu por herança uma gleba num dos lugares mais bonitos do bairro. Ficava à esquerda de quem vem de Fartura, divisando no alto com o bairro Pinheirinho e descendo até o pé da colina, onde haviam muitas minas d’água e ribeirões.

Para chegar lá, a estrada era muito pedregosa e as casas ficavam uma longe da outra e já no caminho dava medo. Antes da casa do Cido e da Lola Garcia, no meio da estrada, tinha uma pedra bem grande, que a máquina de terraplanagem não conseguiu quebrar, e sempre quando os moços passavam por ali viam luzes e barulhos. Eles acreditavam que tinha um tesouro enterrado ali. Essa crença de tesouros enterrados no nosso bairro era devido ao fato que quando houve a revolução de 1932 e os gaúchos, que estavam do lado do governo federal, vieram lutar contra os paulistas que queriam a Constituição, passaram por aqui, pelo rio Itararé, vindos do Paraná. Então as pessoas que tinham dinheiro, moedas e joias as enterravam com medo de serem saqueadas pelos gaúchos. E diziam que quando se enterra ouro, ele fica encantado, e só pode ser recuperado depois que quem enterrou morre e vem contar para um vivo o lugar exato.

Continuando a estória do tio Pedro: seus filhos já estavam adultos e ele já havia dividido o sítio com seus filhos. Os casados já tinham construído suas casas e a sede do sítio era onde depois ficou para o Pedro Bento e Lurdes. Tio Pedro morava ali com a filha Lurdes e o genro Pedro Bento.

Numa manhã ele foi calçar a botina e levou uma picada de aranha. Ela estava dentro da botina e ele não percebeu. O veneno foi tão forte que, minutos depois, ele desmaiou. Chamaram um dos filhos que veio com a charrete e foi levá-lo para o hospital em Fartura.

Chegando lá, foi medicado e o médico recomendou repouso de 40 dias. Mas no começo foi difícil, ele tinha febre e muita dor no pé. E os filhos e netos sempre iam visitá-lo. A Elza já era casada com o Antonio e já tinha seu filho Walter, que tinha uns cinco anos, e iam lá também.

Eles ficavam lá até tarde da noite. E conversavam na varanda. Uma noite repararam que num lugar mais alto, no meio da colina, um pouco antes da casa do Oliveiro e da tia Belica (moravam lá ainda), saia uma bola de fogo dum pé de roseira e subia até o alto e apagava. E era acompanhado por assovios. E os assovios eram altos e desciam até perto da casa do tio. Pareciam que era humano, alguém assoviando para chamar a atenção. E de repente, a bola de fogo saia de novo e subia até o alto.

Um dia a tia Belica foi até o lugar e rezou um terço, mas a noite começou tudo de novo.

Foram dias. O tio Pedro só ficou bom depois de uns quinze dias. Era muito corajoso, então quando começou o fenômeno ele foi até a roseira e falou: se você for alma penada apareça para mim! Fala o que você quer e eu cumpro. Quer que eu mande rezar uma missa para sua alma?

Não obteve resposta mas os assovios e a luz desapareceram e o tio Pedro quando foi à cidade pediu para o padre celebrar uma missa para as almas do purgatório, especialmente para os falecidos do bairro!

 

 

 

                                       

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                    Saci

Quando a pessoa escuta um assovio de Saci, já reconhece na hora, mesmo que nunca tenha escutado. Dizem que dá um arrepio de medo, dos pés à cabeça. Também dizem que ele mora em bambuzais que ficam em serras e perto de água. Acreditavam que é um espírito que não é muito mau, ele gosta mesmo é de fazer travessuras e brigas. Sempre que ele está por perto há uma briga de casal ou de vizinhos. Hoje em dia não se ouve mais falar que ele apareceu, acho que é porque existem poucos bambuzais ou estamos rezando mais.

Meu pai conta que quando o sítio ainda não havia sido dividido, quando ainda era tudo dos bisavós Ignácio e Joaquina Ribeiro Palma, a estrada principal , a que vem de Fartura tinha um caminho diferente. Do cruzeiro para baixo, a estrada vinha fazendo um traçado mais suave, para não correr muito enxurrada. Era enviesada e passava bem na frente do sítio do bisavô, na porta da sala (hoje é onde tem um pé de jabuticaba e outro de ipê, no sítio do Mário) e saia no sitio da tia Nica, perto da atual capela e continuava até a fazenda do Pio Blanco e terras dos Bento de Castro.

E o Saci toda noite descia a estrada assoviando. O bisavô, assim como todos do bairro, faziam açúcar, polvilho de mandioca, farinha de milho. Precisavam ser autossuficientes pois na cidade era muito caro. Um dia, o Saci assoviou bem perto da casa e o bisavô falou: Saci vai lá no engenho tomar mel de açúcar. Para quem não sabe, quando faziam o açúcar, depois que o melado estava bem apurado, ele virava açúcar; então deixavam esfriar, colocavam em cestos feitos de bambu bem forrados com folhas de bananeira, enchiam esses cestos com o açúcar, cobriam com as folhas de banana, e colocavam peso em cima, que podia ser pedras ou terra. Embaixo dos jacás ficava um cocho feito de tora de madeira, onde o mel do açúcar escorria. Era feito assim para o açúcar ficar sem umidade, bem solto. E esse mel não era aproveitado para consumo, era dado para os porcos.

Então quando o bisavô mandou o Saci tomar mel de açúcar, ele foi. O engenho ficava bem perto da atual casa do tio Fernando e tia Ceiça. E contava que ele gostou e ficou folgado! Começou a aprontar traquinagens....galopava a noite inteira nos cavalos e trançava as crinas. Os cavalos amanheciam cansados. O bisavô cansou daquilo e mandou colocar uma cruz perto do engenho. Só assim ele foi embora!

E a estrada principal mudou de lugar quando o sítio foi dividido, foi colocada na divisa; é o traçado que tem hoje.

 

 

 

 

 

 

 

 

                     

                                     Saci 2

 

Ontem meu pai, Mário Palma fez 82 anos e fomos lá festejar! Depois do almoço, na roda de conversa, surgiu as estórias de Saci e do Boi-Tatá (bolas de fogo que aparecem no céu) e meu irmão Gerson observou que hoje em dia ninguém mais ouve assobio de Saci e nem vê as bolas de fogo no céu. A opinião dos presentes é que esse sumiço se deve ao progresso...atualmente todos andam de carro, moram em cidades, não andam sozinhos no escuro. Aliás, é no escuro que essas coisas eram vistas ou sentidas.

E aí meu pai lembrou de uma estória acontecida com seu amigo Zezinho Manoel. Seu Zezinho e família são uns dos fundadores aqui do Bairro, família Bento de Castro juntamente com a família Ribeiro Palma. Foram os primeiros a chegar.

Ocorreu num começo de noite, quando já estava escuro. Seu Zezinho tinha ido à cidade vender fumo, sua especialidade (ele e a família plantavam de tudo, mas a especialidade era plantar fumo, colher suas folhas, deixar secar à sombra, tirar os talos, torcer as folhas e ir enrolando em forma de grandes rolos). E o fumo tinha muito comércio pois naquela época era natural as pessoas fumarem.

Pois bem, seu Zezinho foi para a cidade, como sempre a pé (não gostava de ir a cavalo nem de charrete). Passou a tarde toda lá, foi ao banco, visitou as vendas para vender seus produtos e quando viu já estava escurecendo.

Voltando para casa, faltando uns três quilômetros para chegar, passando pela casa do Zezito Palma e Cotinha Garcia, perto da figueira escutou um assobio. Logo reconheceu que era assobio de Saci. Pensou: o assobio foi longe, então vou apertar o passo e assim vai dar tempo de chegar em casa.

Mas não deu tempo...contava que passado uns segundos, escutou um ronco em sua volta e um assobio. Os cabelos arrepiaram.... então nem pensou, quando viu estava descendo correndo o restante de estrada que faltava para chegar em casa. E no meio do caminho tinha uma porteira feita de arames (chamada de colchete) e é difícil de abrir. Ele não teve dúvida, que abrir que nada, passou com sua roupa de passeio por baixo da porteira, se sujou de terra, tudo para chegar logo em casa, fechar a porta e ficar longe do Saci.

 

 

 

 

                                            Ecologia

Muito antes de se falar em ecologia, seu Zezinho Manuel já se preocupava com as sementes. Hoje sabemos que a Noruega fez um banco de sementes que fica no Pólo Norte e é muito bem protegido. Mas há 50 anos seu José já ensinava aos amigos como guardar as sementes para o ano seguinte sem estragar. Ele as colocava em garrafas bem fechadas com algodão e rolha. Ele gostava de plantar variedades diferentes de milho, abóbora, feijão, e guardava as sementes para plantar ou trocar.

Aqui no Brasil, só faz uns dez anos que vejo o governo falar sobre como guardar e distribuir sementes crioulas, mas se existe esse programa, ainda não chegou em nossa região.

Também ele e a família, além das culturas tradicionais como café, milho e feijão, também plantava fumo, pois na época era normal essa cultura. E era muito valorizado e vendido para toda a região. E a plantação de fumo era muito bem cuidada. Era preparada a terra e adubada, depois o fumo era plantado, capinado e quando vinham as pragas era permitido fazer controle químico. Mas quando as folhas já estavam grandes, quase no ponto de colher, ele não passava veneno para matar as lagartas. Não é porque tivesse medo de fiscalização sanitária, mas era porque era honesto e sabia que o veneno faria mal a quem fosse fumar.

Então as lagartas eram retiradas manualmente. Eram retiradas da planta, jogadas ao chão e esmagadas. Acontece que ele tinha um empregado que não usava botina e nenhum tipo de calçado. Se quisesse brigar com ele era só mandar por sapatos. Pois bem, havia chovido um dia antes, e no dia seguinte foram tirar lagartas. Passado um tempo Seu José olhou a rua que o empregado estava trabalhando e viu que ele pisava as lagartas, mas elas saiam andando, porque estava barro, ele as pisava mas não matava, só enterrava um pouco e já saiam de novo, isso porque ele estava descalço!

O jeito foi mandar ele fazer outro serviço e arrumar um empregado que usasse botinas!

 

 

 

                                           

 

 

 

 

 

 

 

 

                                       Adivinha?

Meu pai tinha um amigo, que de tão amigo parecia parente. Era Seu Zezinho Manuel, filho do José Manuel Bento de Castro. Era casado com Dona Lurdes Coldibelli e formavam um bonito casal: ele era alto, claro, de olhos azuis e ela uma italiana morena-clara. E quando seu filho José Benedito se casou com minha prima Maria Cecília, aí ficou mais próximo ainda.

Seu Zé era muito trabalhador, honesto, alegre, um exemplo de pessoa. E tinha como passatempo caçar e pescar. Quando o rio Itararé foi represado e virou represa de Xavantes, a represa veio parar a uns duzentos metros da sua casa. Ainda bem que ali era pasto! A plantação de café e cereais ficava para cima da casa, num lugar mais alto, então não teve prejuízo.

As terras eram herança de seu pai e tinha como vizinho seu cunhado Alício. Uma vez, depois de ter colhido uma roça de milho, vieram muitos inhambus, que aqui chamamos de lambus. Então ele e o cunhado resolveram caçar. Como não tinham pelotas, foram pegar barro de olaria perto do ribeirão (naquele tempo ainda não estava represado). Foram de tarde, depois do trabalho e combinaram que iriam jantar e depois fazer as pelotas. O Alício foi na casa do Seu Zé. Então eles foram para a varanda, ele acendeu o lampião e ficaram conversando e fazendo as pelotas, cada qual com seu punhado de barro. O Alício terminou primeiro e perguntou para Seu Zé: adivinha quantas pelotas eu fiz? Ele respondeu: Oito dúzias e quatro pelotas. Foram contar e deu exatamente esse número!

Noutra ocasião, ele tinha ido a Fartura fazer compras e aproveitou para descansar um pouco na praça. Nisso veio um seu conhecido da cidade, sentou e ficaram conversando. Naquele tempo vinham grupos de ciganos e ficavam acampados perto da cidade. Viram uma cigana passando e seu conhecido falou: Seu Zé, vamos pedir para a cigana ver a nossa sorte? Ele respondeu: não precisa, eu sei ver a sorte! O outro falou: Duvido. Então vamos ver se o Sr. sabe mesmo...Adivinha quanto de dinheiro tenho no bolso. Seu Zezinho Manuel respondeu: Sete reais. Ele enfiou a mão no bolso e tirou seis reais. Olhou para seu Zé e falou que ele tinha errado. Então Seu Zé falou para ele procurar de novo e ele remexeu os bolsos e encontrou mais uma moeda de um real! Ele ficou boquiaberto.

Também teve o caso da pescaria, mais recentemente, quando já tinha a represa. Seu Zé tinha um barco e sempre convidava os amigos para irem pescar. Ele gostava que fossem dormir no rio. Então foram numa sexta-feira, Seu Zé, meu pai Mário, o Dito do Tibúrcio e Seu Zé Vilella. Atravessaram a represa e foram montar o acampamento do outro lado. Chegando lá, primeiro armaram as redinhas para pegar lambari, porque iam fazer arroz para comer com lambari frito. Depois armaram as redes de malhas maiores que iriam ser retiradas no dia seguinte. Então tiraram os lambaris da rede, limparam, temperaram e fizeram a janta. Ficaram então à beira da fogueira conversando. Conversa vai, conversa vem, e o Dito falou: Seu Zé, adivinha o que tenho no bolso? E o Seu Zé: bala! Nossa, o Dito ficou desenxabido, achou que ele nunca que iria adivinhar....

E meu pai um dia perguntou a ele como se fazia para adivinhar e ele respondeu que o segredo era não pensar. A pessoa perguntava e ele respondia o que vinha na cabeça! Pura intuição!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                 Escola Isolada do Bairro Barra Seca

Chamava-se escola isolada porque ficava longe dos grupos escolares (na cidade). Todas as escolas que ficavam na zona rural eram chamadas pelo MEC de escolas isoladas.

E eram isoladas mesmo! Nossa professora do primeiro e segundo ano, Dona Lucila Cagnoni vinha da cidade até a escola de charrete! Corajosa, vinha sozinha. Ela lecionou dois anos para nossa turma e depois veio outra professora, a Dona Virgínia.

A merenda, no início, era feita pelas mães dos alunos, cada dia uma fazia. Vinha o macarrão, o leite em pó, e a professora entregava para as mães prepararem. Eu gostava quando minha mãe fazia porque, de vez em quando, ela punha frango na sopa.

Então como era difícil para as mães trazerem a merenda de volta para a escola, as panelas eram grandes, a prefeitura começou a preparar na cozinha piloto e as professoras as traziam de manhã. Mas muitos não gostavam e traziam de casa pão com doce de abóbora ou leite ou virado de ovo.

E tinha o cavalo! Um dia o cavalo estava com fome, acho que a Dona Lucila não teve tempo de dar comida a ele antes de sair de casa. Então ela nos levou para o terreno ao lado da escola que tinha capim-gordura e todos nós ajudamos a cortar, com muita alegria. Um dia antes tinha chovido e até hoje lembro do cheiro desse capim. Mas as mães ficaram sabendo e foram lá reclamar e nunca mais colhemos capim.

A escola era multisseriada e cada fileira era para alunos de uma série. E sentavam dois alunos em cada carteira. Eu não lembro com quem eu sentava. Lembro de poucos colegas. Lembro da Cida e do Rodolfo, filhos do Cido e da Lola, e do Zé Dito e Zé Luiz, netos do Zé João. Lembro bem da Vanda, filha do Aparecido Sorocaba e de seus irmãos Flávio e Gilberto. Acho que é porque nós duas desenhávamos bem, incentivadas pela professora do terceiro ano, Dona Virgínia Bento, esposa do farmacêutico Zé Bento.

Também lembro que quando eu estava no segundo ano meu irmão Eduardo entrou para fazer o primeiro ano. Eu já sabia escrever. E no dia das mães tínhamos que fazer um cartão. O Eduardo ainda não sabia fazer...então ele desenhou e o colega dele, do segundo ano, escreveu. Na escola não percebi, mas no domingo quando entregamos os cartões e eu vi que a letra não era dele, fiquei com muito ciúme, chorei e falei que a professora tinha que ter mandado eu escrever no cartão, porque eu era irmã!

Tempos felizes aqueles; duraram só três anos. O quarto ano era feito na cidade e ficamos longe, cada um foi estudar numa escola.

 

 

 

 

                                   Feitiço ou Hipnose?

Do lado direito da Barra Seca (sentido de quem vem de Fartura) ficava a fazenda do tio Juvenal Garcia, casado com tia Júlia Ribeiro Palma. Continuando à direita era a fazenda do Dito Garcia, e depois a do Domingos Garcia, pai do Zé Mingo e do Luiz Mingo, fazendas essas já no bairro Serrinha.

Lá também tinha caçadas pois nos fundos do bairro Serrinha tem ribeirões que chegam até o rio Itararé, hoje represa de Xavantes. Iam da cidade alguns homens, parentes e amigos. Iam cuidar do rebanho e também caçar.

Um desses amigos era o Joaquim Carneiro que se dizia feiticeiro. Gostava de alardear seus poderes. Então fazia trabalhos para cair carrapato dos animais, afastar cobras e escorpiões, etc. Os fazendeiros davam remédios ao rebanho, mas também não era bom duvidar, então deixavam ele fazer as mandingas.

A Maria era recém-casada com o Alfredo Garcia (filho do Zé Mingo) e não gostava daquele entra e sai de homens na sua cozinha para tomar água e café com leite. Não gostava dos estranhos, principalmente do Joaquim Carneiro, pois ela e o marido eram muito católicos e não gostavam desse negócio de mandingas. E ele também já tinha percebido que ela não gostava dele.

Um dia ela estava atarefada na cozinha fazendo o almoço quando entrou seu cachorro. Ela gritou: sai cachorro sem vergonha! Nisso entrou o Joaquim e achou que ela estava falando aquilo para pegar nele.

Falou: hoje vocês não vão dormir. Ela nem ligou e continuou seu trabalho. E não é que não dormiram mesmo! Contava que quando ela e o Alfredo estavam pegando no sono, escutavam um barulho, acendiam a lamparina e era aquela multidão de ratos descendo pelo telhado, passando correndo sobre as cobertas. No dia seguinte foi a mesma coisa, só que eram aranhas e percevejos.

No terceiro dia ele foi lá de novo, de tarde para caçar com a turma, e perguntou se eles tinham dormindo bem.

Ela então entendeu que precisavam rezar. Chamou a Cota e o Chico Garcia (filho do Luiz Mingo) que moravam na fazenda próxima, contou a situação e pediu para irem na casa dela rezar um terço. Foi só assim que pararam de ver coisas e conseguiram dormir de novo!

 

 

 

 

 

 

                                Caçadas em Fartura

Assim como assistimos a caça à raposa nos filmes ingleses, em Fartura nas décadas de 1940 e 1950 também haviam muitas. Só que eram outras caças. Era um esporte.

O tio Vicente Ribeiro Palma e seu cunhado Juvenal Garcia caçavam pacas e cutias às margens do rio Itararé. Cada uns tinha três cachorros pequenos, chamados paqueiros. Eram treinados e iam à frente mostrando onde tinha pacas. Latiam e ajudavam a retirar as pacas das tocas. Quando o tio pegava a espingarda, os cachorros já sabiam que iriam caçar e faziam o maior alvoroço, tanto que um dia passaram correndo perto do primo Fernando, que era menino, o derrubaram e fez um corte enorme na perna e até hoje ele tem a cicatriz.

Já o tio José Neves, casado com tia Inácia Ribeiro Palma, era fotógrafo profissional e só podia vir aos domingos. Trazia sua espingarda e seu cachorro. Tinha um dálmata muito bonito. Ele caçava codornas no sitio da tia Nica, que depois ficou para a Dona Bilica e Seu Oliveiro. Ele atirava e o cão ia buscar e trazia a caça a seus pés.

O outro irmão, o tio Pedro Ribeiro Palma, gostava de caçar veados e capivaras. Ele, seu filho Oliveiro, e seus amigos José Marciano de Castro e Joaquim Bento tinham muitos cachorros. Meu pai, Mário, conta que cada um tinha uns dez cachorros, todos ensinados, amestrados como dizemos hoje. Tinha muitas matas às beiras dos riachos, ribeirão Barra Seca e rio Itararé. Os sítios eram limítrofes e a divisa era a água dos riachos que ficavam em grotas cobertas de mata. À beira do rio Itararé era uma floresta, uma mata muito densa. E tinha caça em abundância. Aos sábados e domingos era aquele barulhão de cachorros, latindo, acuando e os homens atiçando. No fim do dia traziam para casa as caças, que eram limpas, temperadas e serviam de mistura para vários dias da semana.

Contam que um dia o tio Pedro foi caçar sozinho, caiu do cavalo e quebrou a perna. Foi muito difícil montar de novo para voltar a casa. E naquela época não usavam gesso, então enfaixaram sua perna com tiras de pano, e ele ficou uns três meses deitado com a perna imobilizada sobre calha de telhas Paulista (aquelas arredondadas).

Mas voltando para nossos dias, tem muitos que gostam desse tipo de carne e tem restaurantes chiques que servem as criadas em cativeiro, pois a caça é proibida, mas acho que capivara deveria ter a caça liberada, pois a população aumentou muito em nossa região, trazendo carrapatos e a doença febre maculosa. Sei de casos que ocorreram em Fartura e Piraju. Nossas represas tem lugares muito bonitos, mas eu evito ir, por medo de se picada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                          Vaca Brava

 

De vez em quando nossa amiga Rosa ia em casa, após as aulas, para pedir para minha mãe nos deixar ir brincar na sua casa. Ela gostava muito de nós. Tínhamos entre 6 e 9 anos, a Rosa, eu e meus irmãos.

 A Rosa é filha do Inácio e Maria José Garcia. A gente gostava de ir lá, principalmente porque tinha leite de vaca; em casa só tinha leite de cabra.

 A fazenda era do tio Juvenal Garcia e da tia Júlia Ribeiro Palma. Sua filha Maria José e o marido Inácio moravam lá e também o outro filho do tio, o Benedito. Eles trabalhavam no retiro. O Inácio e o Dito roçavam os pastos e cuidavam do rebanho. De manhã ele e a Maria José tiravam leite. Eram muitas vacas. Depois ele punha os tambores de leite na carroça e levava para a cidade. Era muito trabalhoso. Quando voltava a Maria José tinha que lavar os tambores para o dia seguinte.

 O tio Juvenal tinha feito um acordo com o genro Inácio que das crias nascidas, as fêmeas ficavam na fazenda e os machos eram do Inácio.

 Então, para nossos padrões, eles eram ricos. Tinham muita fartura. A casa era bonita, alta, de tábuas, na frente tinha um terraço alto e uma rede. Também tinha um riozinho cheio de pedras. Depois que a gente brincava a Maria José nos chamava para tomar leite com farinha. E tinha nata por cima, uma delícia!

 Acontece que para chegar na casa tínhamos que atravessar um pasto enorme. Não era como hoje em dia, que tem muitos piquetes. Um dia quando estava faltando uns 500 metros para chegar, uma vaca que tinha um bezerrinho começou a correr atrás de nós. A gente corria e ela atrás...Corremos muito! Sorte que tinha um pastinho para os bezerros, passamos por baixo da cerca e ficamos escondidos no meio do capim colonião.

 Desse dia em diante minha mãe não nos deixou mais ir lá sozinhos.

 

 

 

                                          

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                           Rosa Amarela

 

Eu tinha uns oito anos. Aos domingos os pais iam pescar e as mães saiam passear com os filhos, iam à casa dos parentes ou amigos.

 Naquele domingo, depois do almoço, minha mãe e a tia Ceiça arrumaram as crianças, penteando nossos cabelos, colocando uma roupinha melhor e nos levaram para passear na casa da Dona Lurdes e do Seu Pedro Bento.

 Passando em frente ao sítio da Lola Garcia e do Cido Palma colhemos algumas romãs que tinha à beira da estrada. Chegando lá na casa do Seu Pedro Bento, quanta novidade!

 Para nós, o passeio foi cansativo porque ficava a uns dois quilômetros. Mas foi muito divertido. Lá tomamos leite tirado na hora, brincamos no rio e conhecemos coisas novas.

 Sua casa era bonita, de tábuas, com calçadas de pedra. O quintal também era calçado de pedras e tinha uma casinha onde dentro dela passava um riozinho que tocava um monjolo. Ele era pecuarista, então a casa era cercada para os animais não entrarem.

 No jardim havia muitas roseiras e uma em especial, uma roseira amarela! Cheia de rosas.

 Lá estavam também a filha deles, Luzia, a prima Joaquina, os primos e um mineiro chamado Nelson. Todos jovens. No nosso bairro era muito comum ter empregados mineiros. Eles vinham de uma região de Minas Gerais que era muito seca e ficavam nos sítios, trabalhando e morando na mesma residência. Gente boa. Quando juntavam dinheiro iam embora, outros se casavam e ficavam por aqui mesmo.

 Naquele tempo não tinha televisão, eu ainda estava aprendendo a ler, não sabia quase nada da vida. Não sabia que existia flerte, namoro, casamento.

 Vi o Nelson entrar na casa com uma rosa amarela nas mãos e entregar para a Joaquina.

 Achei a coisa mais linda do mundo! Perguntei baixinho para minha mãe porque ele deu a rosa para ela e ela me contou que estava querendo namorá-la para depois casar.

 Nossa, fiquei encantada com aquilo. Falei para minha mãe que queria crescer logo para também ganhar rosas!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                      Lobisomem?

 

Meus pais eram recém-casados e foram morar em uma casa construída um pouco acima da de seus pais, mais perto da estrada.

 A tia Sebastiana e os filhos moravam no sítio ao lado. As casas de sítio tinham a porta fechada por uma taramela e uma tranca que consistia em duas argolas de couro, uma de cada lado da porta, onde era fixado um pedaço de madeira roliça. Essa tranca só era usada à noite.

 O primo Inácio era solteiro. Ele tinha uma égua chamada Amazona e umas duas vezes por semana, depois da janta, ia à casa dos primos ouvir rádio e jogar baralho.

 Uma noite dessas quando ia voltando, lá pelas 11 horas da noite, ao atravessar a encruzilhada olhou para cima, dos lados de Fartura, e viu um bichão que mais parecia um urso, descendo a estrada. Ele contava que era grande e vinha rebolando. Os pelos brilhavam.

 Chegou a espora na égua e passou gritando pela estrada perto da casa dos meus pais. Meu pai conta que ele gritava: mãããe abre a porta...mãããe abre a porta!

 Dona Sebastiana contava que na hora que escutou os gritos, levantou, acendeu a lamparina e foi abrir a porta. Tirou a tranca de um lado da porta, nem deu tempo de tirar do outro lado. O Inácio do jeito que pulou da égua deu uma peitada na porta e arrebentou a tranca!

 Fechou a porta e só no outro dia foi tirar o arreame da Amazona.

 

 

                                     Ai que medo!

 

Aconteceu faz uns 20 anos. Era noite de lua cheia. Naquela semana eles estavam sozinhos e não tinha vizinhos morando perto como hoje. Meu pai tinha um cachorro chamado Tarzan e já fazia três dias que lá pelas dez horas da noite fazia um barulhão, acuava, corria, latia...e sempre começava na porta da sala.

 Como no sítio se dorme cedo, nesse horário eles já estavam na cama. No terceiro dia meus pais escutaram um barulho de passos, veio caminhando até chegar na janela do quarto deles e parou. E o cachorro começou a latir, parecendo que queria morder. Meu pai não aguentou aquilo, levantou de pijama mesmo, pegou o farol e saiu pela porta da cozinha.

 Nisso o Tarzan já estava latindo na primeira rua do cafezal. E estava muito bravo, ia para cima da coisa e até levantava poeira e folhas para o alto. Aí o cachorro ficava quieto. De repente começava o barulho na rua seguinte, meu pai andava mais uma rua...foi assim até chegar na estradinha que corta o sítio e vai pelos lados da antiga fazenda da tia Júlia e do tio Juvenal Garcia.

 O cachorro atravessou a estrada e naquele lado tinha um milharal secando e cheio de espinhos. E o cachorro entrou e foi acuando e aquele pega não pega...Aí caiu a ficha...Ele olhou para trás e viu que já estava longe de casa.

 Disse que deu um medo tão grande que até doeu…Voltou correndo para casa.

 

 

 

 

                            A assombração que crescia

 

Meu tio-avô era solteiro e morava com a irmã Luíza, casada com João Vieira Palma.

 A fazendinha ainda não tinha sido dividida e moravam ainda na casa dos pais. Essa casa ficava onde hoje é o sítio do Mário Vieira, meu pai, e além das plantações tinha um pasto e um curral que ficava em frente da casa. Então para chegar em casa era necessário passar pelo curral, abrindo as porteiras. Sempre depois da janta ele ia passear na casa dos primos. Contava que numa noite estava passando pela encruzilhada quando viu um vulto branco. Começou a correr e olhou de novo e viu que o vulto cresceu e estava arcando sobre ele. Correu muito e chegando em casa nem abriu as porteiras, pulou por cima, empurrou a porta e caiu desmaiado. A vó Luíza contava que ele ficou vários minutos desacordado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                              Vizinho Folgado

 

 Meu avô materno, Durvalino Arruda, era descendente de um dos fundadores de Piraju, Joaquim Antonio de Arruda. Seu pai se estabeleceu em Sarutaiá, e lá criou seus filhos. Tinham uma chácara, mas como eram muitos filhos, eles foram trabalhar nas fazendas de café.

 Meu avô foi trabalhar na fazenda da Sra. Beatriz. Ela e o marido, João Trigo, eram espanhóis. Competentes nos negócios e conscientes da importância de se preservar a natureza. Sua fazenda era grande produtora de café. Tinham muitos empregados que moravam na fazenda, tinham um terreiro para secar café enorme, lavador, máquina de beneficiamento e o café era entregue diretamente em Santos para exportação. Quanto à ecologia, nas partes baixas da fazenda (grotas) onde tem rio e minas d’água, não foi cortado nenhuma árvore. E não deixavam os empregados cortar nem um palmiteiro.

 Depois que eles se foram, uma filha fez loteamento de uma parte da fazenda e quis o destino que eu e meu marido comprássemos um sitinho lá. E ainda hoje a mata nos grotões está preservada, tem muitos palmiteiros, muita água, e como dizia meu avô, a mata é virgem, ou seja, nunca foi queimada.

 Mas voltando a estória de meu avô...depois de uns doze anos trabalhando com Dona Beatriz, ele resolveu se mudar. Falou para os patrões que estava cansado de ficar num lugar só. Eles sugeriram que trabalhasse com seu parente no município de Fartura. Era o Sr. Pio Blanco que tinha uma fazenda grande às margens do rio Itararé e precisava de meeiros.

 Meu avô foi. Seus filhos já eram adolescentes, então ele tinha mão-de-obra e iriam dar conta do trabalho. As casas ficavam à beira do rio e na parte alta, mais plana era onde as roças seriam plantadas. Iriam plantar de tudo...arroz, feijão, milho, batata doce, mandioca. Mas a primeira roça seria de milho, pois precisava alimentar as galinhas e os porcos, além de vender o excedente.

 Mas um sitiante do lugar falou: Durvalino, eu duvido que você consiga colher milho. Porque o meeiro do fazendeiro vizinho, quando vê que a roça na fazenda do Pio está com milho verde, solta os porcos...Acaba com a roça.

 Meu avô falou: comigo vai ser diferente...quer apostar que eu colho milho?

 Pois bem...preparam a terra e plantaram o milho. Foi um ano bom, choveu no tempo certo e a roça estava linda. Quando chegou a época de se comer milho verde, o vizinho soltou os porcos.

 Meu tio fazia vistoria toda manhã e viu o rastro dos porcos e uma parte do milharal comida. Meu avô falou: vamos resolver isso. Foi até a casa do vizinho e falou: seus porcos esta noite estiveram no meu milharal e fizeram estrago.

 O vizinho falou: eu não tenho porcos! Bom, então o Sr. me desculpe. Chegando em casa chamou seus filhos, subiram lá na roça, e na entrada em direção ao trilho que os porcos tinham feito, fizeram uma armadilha. Uma vala funda, coberta com capim e espigas de milho. Dito e feito: no dia seguinte, de madrugadinha, foram ver e tinha dois porcos grandes lá dentro. Mataram, colocaram na carroça, levaram para casa e lidaram com os porcos. O dia inteiro foi de trabalho...Fritar o toucinho, fritar a carne que seria guardada na gordura, fazer chouriço e linguiça.

 Ao fim do dia tudo pronto. Janta na mesa. Todos jantando, se deliciando com as iguarias. Nisso chega o vizinho. Meu avô foi atender e ele falou: Seu Durvalino, por acaso viu meus porcos? sumiram dois grandes. Sumiram? Mas o Sr. falou que não tinha porcos…Por aqui não passaram.

 Foi o que bastou. Nunca mais um porco estragou as roças. Plantou e colheu muito nas terras do Sr. Pio Blanco. Era meação...entregava uma parte ao patrão e com sua parte, o que sobrava do sustento da família, vendia. E realmente tiveram muita fartura!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                          OVNI ?

 

 Aconteceu na década de 1950. Minha mãe e seus irmãos moravam à beira do rio Itararé, na fazenda do Sr. Pio Blanco. Uma vez por semana, depois da janta, ela e seus irmãos iam à casa dos amigos Ribeiro Palma. São os filhos do João e da Luiza e os do tio Vicente e Sebastiana Castro.

 Gostavam de ir lá, porque tinham rádio. Conversavam, ouviam música, dançavam. E lá pelas 10 h da noite iam embora. Para chegar a sua casa na beira do rio eram uns 2 km.

 A noite estava escura. Ligaram o farol à pilha e foram caminhando. Quando estavam caminhando pela estradinha que passava pela fazenda do Sr. Antônio Otaviano, que é um lugar mais alto, veio um clarão por cima deles. Minha mãe conta que era um clarão tão forte, que enxergaram todos os detalhes que tinha no chão, até os pedregulhos pequenos. Veio do lado de Timburi e foi para os lados de Itaporanga.

 E passou rápido, fazendo um barulho, roncando. Até hoje ela comenta com tia Ceiça. Uma acha que era um disco voador, outra que era um meteoro. Vai saber...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                       Assombração

 

Aconteceu com meu pai. Tinha cinco anos, aproximadamente. Muito mimado pelos pais e irmãos mais velhos. Por isso, sempre fazia birra e xingava muito. Um dia seus pais precisaram ir à cidade e não podiam levá-lo. Pegaram a charrete e saíram escondido. Pouco tempo depois ele percebeu. Saiu correndo, chorando e xingando. A estrada que saia do sítio fazia uma curva para adentrar na estrada principal. Para cortar caminho, ele foi correndo pelo terreno que tinham acabado de colher milho. Antes de passar embaixo da cerca tinha de passar pelo local onde o milho tinha sido debulhado e só tinha sobrado os sabugos.

 Como estava correndo, quando foi passar escorregou nos sabugos e caiu. Chorou mais ainda e xingou todos os nomes feios que sabia xingar. Levantou e nisso viu em cima do palanque da cerca uma careta...viu só a cabeça. Conta que era uma cabeça horrorosa, com os olhos arregalados, vermelhos e uma boca enorme dando risada.

 Apavorado, tentou correr e caiu de novo. Desistiu de ir atrás dos pais. Saiu engatinhando sobre os sabugos de milho e voltou para casa. Contou para os irmãos. Depois disso, nunca mais xingou.

 

 

 

 

 

 

 

                                       Diversidade

 

Novidade no bairro: chegou um novo morador trazendo uma família grande, com vários moleques. Agora sim, ia dar para formar times de futebol.

 E ainda vinha do Paraná, trazendo uma bola de cristal e era praticante de “mesa branca”. Mãe, o que é mesa branca? Ah, mesa branca não é mesa preta. Como assim? Mesa branca é quem trabalha com os espíritos bons. É da religião espírita, cobre a mesa com toalha branca e coloca um copo com água em cima. E mesa preta é quem mexe com espíritos do mal.

 Ah bom! Se fosse mesa preta eu ia ficar com muito medo. Não precisa ter medo. É só levantar de manhã e fazer o sinal da cruz. Fecha o corpo contra todo mal. Ainda bem, mãe!

 Na verdade foi muito bom ter esses novos vizinhos. Gente diferente de nós, com outros costumes, outra cultura. Eles trabalhavam duro na lavoura. À tarde, depois do banho e da janta, a criançada se reunia na fazenda, jogar futebol no campinho.

 E os adultos ficavam conversando. Quanta novidade. E “Seu” Antônio era muito respeitado. Todo mundo queria fazer consultas com ele. Ia gente do bairro e gente de longe. E ele receitava garrafadas. Coisas simples como ervas e condimentos com as quais ele temperava o vinho branco. A gente levava os ingredientes, ele preparava, era para deixar curtir sete dias e tomar uma dose antes das refeições. Tudo natural...noz moscada, canela, alecrim, arruda, cravo e outras ervas, que eram usadas dependendo da reclamação da pessoa. E a gente achava tudo mágico.

 E ainda ele consultava a bola de cristal e a gente podia olhar. Mas a gente nunca viu nada nela.

 Às quintas-feiras tinham as reuniões da mesa branca. Vinham as pessoas preparadas para isso, da cidade e região. E nós, moradores do bairro ficávamos em volta da mesa, em silêncio, só assistindo.

 Era tudo muito curioso. Não acontecia nada de mais. Algumas pessoas mudavam a voz, davam conselhos, rezavam. Mas um dia um homem incorporou um espírito bravo. E estava revoltado. E Seu Antônio pegou uma tesoura para dar um choque nele. Quando um espírito estava rebelde, era só encostar algo de metal na pessoa para ela levar um choque (sem eletricidade). Era usado uma tesoura.

 Nossa, quando foram encostar a tesoura no homem ele, que fazia parte da mesa e estava sentado, deu um salto para trás com cadeira e tudo e fez um barulhão. Nossa, a criançada saiu correndo. E foi o assunto da semana. Até hoje não entendemos como tudo aconteceu, como o homem não caiu da cadeira.

 Esses vizinhos ficaram trabalhando na fazenda por uns cinco anos. As crianças cresceram, a família se mudou e não tivemos mais contato. Foi um tempo bom.

 

 

 

 

                                   

 

 

 

 

                                   Tornou orador.

 

Filho de sitiante forte, farturense da gema, estudou na escola do bairro que naquele tempo tinha um ensino puxado. Completou sua cultura com os filmes que assistia aos domingos no matinê no cinema da cidade. Depois do cinema ia à missa. Gostava de ler a bíblia e também livros de bang- bang . Também era muito sociável. Às quintas feiras jogava baralho na casa dos tios e às sextas feiras dançava forró na casa dos amigos.

 Casou-se e foi morar na cidade grande. As coisas ficaram difíceis. Trabalhava duro para criar os filhos. Depois do trabalho sempre relaxava no bar bebendo umas com os amigos (hoje chamamos happy hour).

 Num começo de noite após sair do bar, depois de tomar umas a mais, indo para casa passou em frente a uma igreja evangélica. Tinha poucas pessoas no culto. Parou, olhou e entrou. O pastor estava pregando o evangelho do dia. Ele não hesitou: tomou o microfone da mão do pastor, disse você não sabe de nada, eu vou ensinar vocês. E falou por mais de meia hora!

 E assim ele se tornou um exímio orador e pregador da palavra de Jesus!. Ele já tinha o dom, só faltava a oportunidade! Não vai mais a happy hour e não bebe nem vinho.

 

 

 

 

 

 

                       Para quem acredita em milagre

 

Tinha 22 anos, recém-casado. Foi buscar lenha à margens do rio Itararé. Ia com uma carroça puxada por um cavalo e uma mula. Sozinho. Próximo ao rio, havia um arrozal cacheando. Os cachos de arroz estavam dourados, pendendo com o peso dos grãos. O arrozal ficava num terreno com declive que passava por um riozinho e depois a estrada continuava por uma subidinha, descia novamente e chegava perto do rio Itararé, onde havia muita lenha.

 Para ir, foi um trabalho danado segurar os animais, que queriam muito comer o arroz. Seria um prejuizão porque o arroz era do vizinho. Com muito esforço atravessou o riozinho e carregou a carroça com a lenha.

 Às margens do riozinho, cobrindo a estrada que passava sobre ele, sobre algumas árvores cresceu um cipoal onde os passarinhos faziam uma algazarra, felizes porque estavam comendo o arroz.

 Carregou a carroça e ia voltando. Antes de chegar ao ribeirão, o cavalo e a mula já começaram a trotar, entusiasmados com a possibilidade de comer do arrozal. Na volta, era preciso direcionar os animais para andar sobre um trilho profundo, desgastado pela enxurrada, para a carroça não tombar.

 Ele direcionou os animais para esse trilho mas percebeu que o breque da carroça estava travado. A solução foi segurar no cabresto do arreio e os ir direcionando.

 E os animais desembestaram...nisso caiu de costas na frente da carroça. Olhou para cima e viu a morte. Ia ser esmagado na altura do abdômen. Deu um grito tão grande que até hoje não entende de onde saiu aquele grito. Clamou por Nossa Senhora. Sentiu um empurrão muito forte nas pernas e não viu mais nada.

 Acordou. Estava deitado de costas sobre a areia branca da prainha. Ouviu o canto dos passarinhos. Levantou e viu os animais comendo do arrozal, a carroça sendo puxada por eles e a carga intacta.

 Pensou: fui agraciado com um milagre da mãe de Jesus! Ela me tirou da frente da carroça.

 

 

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