quarta-feira, 22 de agosto de 2018


                                                                                   
                                                                   FARTURA

Victimado por incansável perseguição de pessoas sem prestigio social ou politico que desejam a todo custo preponderar nesta freguesia, não surprehende-me a acusação dirigida por Hylário Nogueira de Azevedo ao exmo. Governador e na qual sou taxado de conspirador contra o  actual regime  politico. De mais que isso era capaz o meu acusador, por ser para elle indiferente poder ou não provar as suas proposições embora sob assupto de tanta gravidade como o de que se occupou. Já declarei pela imprensa que não fazia oposição ao novo systema politico. Embora privado de aceital-o por motivos que expuz, depois disso, e para satisfazer amigos e aos interesses da povoação por mim fundada, creada e até hoje mantida em constante progresso, accedi novamente a trabalhar, deixando de novo os meus commodos e os meus interesses privados, para cooperar com meus esforços á bem da causa commum – do interesse de todos em geral. Jamais passou me pela ideia a lembrança, alias só concebível por espíritos infermos, de promover reuniões com o pensamento criminoso de opor-me aos intuitos do governo, cujo actos até hoje praticados para esta localidade e com o fim de solidificar a politica que se inaugura, em nada podem ferir-me, embora nutra o desejo de ver os cargos públicos mais dignamente exercidos isto é, por pessoal mais apto e capaz de satisfazer ao próprio governo. Para que reuniões sediciosas em um logar de pequeno pessoal, ainda no berço, quando ninguém cogita da restauração da monarchia, quando o governo tem a seu favor geraes adesões dos membros dos partidos decahidos? Seria preciso, para praticar semelhante disparate que estivesse louco e, graças a Deus, reconheço me  ainda de perfeito juízo, no goso completo das minhas faculdades mentaes  e intellectuaes. Fiquem, portanto, o honrado governador deste estado e o publico em geral sabendo que o meu denunciante é um vil caluniador, um instrumento passivo atirado adrede contra mim contra mim para crear-se a meu respeito a predisposição do governo e assim inutilizar-se de vez o meu auxilio a causa do progresso moral e material desta freguesia a que devotei-me desde que a creei. Fique deste modo conhecido o objetivo dos botes envenenados pela calunia que me são arremessados.
Freguesia da Fartura, Estado de São Paulo, 28 de fevereiro de 1890                         
                                                     Vicente de Oliveira Trindade e Mello 

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