Jornal O Estado de São Paulo agosto de 1895
FARTURA
No ``Estado de São Paulo´´, de 25 do mez pretérito, deparou-se nos com uma
espécie de auto biografia do Sr Vicente Trindade, cidadão que julgando-se um
outro rei Menelau cá da terra , sofre
actualmente da mania da perseguição.
O trágico Trindade vê o bastão do poder
periclitante: na sua imaginação exaltada passam hordas de assassinos, de
jogadores, de sicários ferocíssimos, gente
que planeja na sombra um assalto ao manto régio, todo comido pela traça
e pela corrupção e cujo destino as argamassas poderão prophetisar .
Julga-se uma victima da inveja: tão
amado, tão querido do seu povo, que até o quiseram mata . Elle conta-nos essa
terrível historia em quatro palavras, mas depois confessa que ainda esta vivo, que
ainda não é de gesso.
A auto biographia do reisete destronado
presta-se a um estudo interessante: ella não representa mais que o derradeiro
apello de uma individualidade acephala que abandonada por toda gente seria , pensou
encontrar refugio nas forças dirigentes do governo. Quer dizer, Trindade a
mania das grandezas: todo o seu encanto, toda a ilusão que algum prazer lhe da
a sua vaidade é ser rei, é ser mandão. Porque não atentam mais nelle, porque a
estatua argamassada com falso barro, assente em fundamentos ocos, cedeu ao mais
pequeno sopro vital de uma nova vida, de uma vida que ha de dar a fartura o seu
logar proeminente na vanguarda do progresso e da civilização.Trindade julga-se
perdido julga-se um mártir de perseguições e resolve atirar aos
quatro ventos da publicidade um artiguete que era para ele o seu amado
manifesto, mas que é para nós e para toda gente sensata o documento victorioso
da sua chateza politica, da sua completa inutilidade.
Em politica, todos o sabem, os velhos
elementos têm de ceder a lei da evolução.
A influencia de Trindade de Mello nos
destinos de fartura foi a aza negra que pairou por muito tempo no ambiente
politico, retrahindo os elementos mais ricos do partido republicano. neutralizando
os mais valiosos e os mais sinceros patriotas.
Ninguém fez mal ao homem que vem
queixar-se de que o querem matar. Não há entre todos os homens que lhe são
desafectos um único que lhe de a importância de o perseguir.
O Sr Trindade foi na politica um
desastrado um mal servidor o seu consulado foi de prepotências, de
perseguições, de assassinatos: agora apela julgar-se perseguido, temendo um
ajuste de contas. Engana-se: o grupo dos que acusa não pode ter paridade com a
capangagem do Sr Trindade. Mas não se deprehenda que esta grande sentimento de
generosidade que nos anima vae ao ponto de perdoarmos umas tantas injurias. Isso
não .
O Sr Trindade que tem na sua família
jogadores eméritos, não tem o direito de nos confundir na mesma profissão. O
partido que actualmente presta o seu apoio incondicional ao governo é composto
de gente seria, de gente trabalhadora e de gente que reduz a pó de gato um
potentado como o Sr Trindade.
Não berre, não se agite, não se prepare
para negar: o ultimo da Fartura é a prova eloquente de que o Sr Trindade nem
para cabo de guerra tem requisitos. De nada valeram as manhas, as tentativas de
suborno ao comandante da força.
A Fartura tendo 492 eleitores, entre
mortos e mudados, deu ao governo a grande maioria de 392 votos. Mas votos
reais, cabidos alli á boca da urna , não
feitos em casa, entre um festim de ridículos parasitas.
O resultado foi doloroso; por isso o
artiquete é o uivo rouco do lobo a quem deram a caça. Entretanto o Sr Trindade
que tanta caramilhola impinge no seu manifesto aos povos, manhosamente occultou
a vilania de ter feito espalhar que as mesas eleitoraes seriam atacadas, facto
de que estas tiveram conhecimento pelo próprio comandante da força.
Como é que um homem de prestigio como se
julga o Sr Trindade, recorre ao triste e miserável expediente de querer vencer
pelo terror a consciência do eleitorado?
Se era um politico forte, se tinha
popularidade, porque não havia de deixar correr o pleito serenamente ?
Queixa-se de um grupo. que lhe fizeram?
O ridículo documento não o diz, Palavras só palavras, um conjuncto de hybrido
de falsidades, dictadas por um espirito que não esta na sua hora de lucidez,
desprezamos calunnias, nem a ellas sequer consagraremos duas linhas de
desmentido. O que só pretendemos provar é que o Sr Trindade, perdido o pouco
prestigio que tinha, não tem o direito de fazer desabafos, insultando.
Aqui do que se trata é de saber se o Sr
Trindade vale ou não vale.
Venceu? Não venceu. Porque o eleitorado
deu ao governo 392 votos.
Que quer portanto, o Sr Trindade ?
Porque se queixa? Que culpa temos nós do
absoluto desprezo a que foi lançado pela maioria do município?
Queixe-se de si, queixe-se do seu pouco
tino da sua vaidade balofa.
A condição essencial para se adquirir
prestigio politico é ser-se humano, ser-se dedicado, ser-se um factor
completamente ao serviço dos povos
Foi-o Sr Trindade? A resposta acaba de
nol-a dar o resultado das ultimas eleições em que o espirito do município, cansado
de aturar as fantochadas do grotesco títere, o lançou á margem, como um traste
inútil, que para nada serve.
E... temos dito
Fartura, 12 de agosto de 1895
Geronymo Vieira de Andrade
Manoel Custodio Ribeiro
Carlos Ribeiro
Antonio Eugenio de Paula
José Cassimiro da Rocha
Hermenegildo Gonçalves Neves
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