quarta-feira, 22 de agosto de 2018


                Jornal O Estado de São Paulo agosto de 1895

                                         FARTURA

No ``Estado de São Paulo´´, de  25 do mez pretérito, deparou-se nos com uma espécie de auto biografia do Sr Vicente Trindade, cidadão que julgando-se um outro rei Menelau cá  da terra , sofre actualmente da mania da perseguição.
O trágico Trindade vê o bastão do poder periclitante: na sua imaginação exaltada passam hordas de assassinos, de jogadores, de sicários ferocíssimos, gente  que planeja na sombra um assalto ao manto régio, todo comido pela traça e pela corrupção e cujo destino as argamassas poderão prophetisar .
Julga-se uma victima da inveja: tão amado, tão querido do seu povo, que até o quiseram mata . Elle conta-nos essa terrível historia em quatro palavras, mas depois confessa que ainda esta vivo, que ainda não é de gesso.
A auto biographia do reisete destronado presta-se a um estudo interessante: ella não representa mais que o derradeiro apello de uma individualidade acephala que abandonada por toda gente seria , pensou encontrar refugio nas forças dirigentes do governo. Quer dizer, Trindade a mania das grandezas: todo o seu encanto, toda a ilusão que algum prazer lhe da a sua vaidade é ser rei, é ser mandão. Porque não atentam mais nelle, porque a estatua argamassada com falso barro, assente em fundamentos ocos, cedeu ao mais pequeno sopro vital de uma nova vida, de uma vida que ha de dar a fartura o seu logar proeminente na vanguarda do progresso e da civilização.Trindade julga-se perdido  julga-se um  mártir de perseguições e resolve atirar aos quatro ventos da publicidade um artiguete que era para ele o seu amado manifesto, mas que é para nós e para toda gente sensata o documento victorioso da sua chateza politica, da sua completa inutilidade.
Em politica, todos o sabem, os velhos elementos têm de ceder a lei da evolução.
A influencia de Trindade de Mello nos destinos de fartura foi a aza negra que pairou por muito tempo no ambiente politico, retrahindo os elementos mais ricos do partido republicano. neutralizando os mais valiosos e os mais sinceros patriotas.
Ninguém fez mal ao homem que vem queixar-se de que o querem matar. Não há entre todos os homens que lhe são desafectos um único que lhe de a importância de o perseguir.
O Sr Trindade foi na politica um desastrado um mal servidor o seu consulado foi de prepotências, de perseguições, de assassinatos: agora apela julgar-se perseguido, temendo um ajuste de contas. Engana-se: o grupo dos que acusa não pode ter paridade com a capangagem do Sr Trindade. Mas não se deprehenda que esta grande sentimento de generosidade que nos anima vae ao ponto de perdoarmos umas tantas injurias. Isso não .
O Sr Trindade que tem na sua família jogadores eméritos, não tem o direito de nos confundir na mesma profissão. O partido que actualmente presta o seu apoio incondicional ao governo é composto de gente seria, de gente trabalhadora e de gente que reduz a pó de gato um potentado como o Sr Trindade.
Não berre, não se agite, não se prepare para negar: o ultimo da Fartura é a prova eloquente de que o Sr Trindade nem para cabo de guerra tem requisitos. De nada valeram as manhas, as tentativas de suborno ao comandante da força.
A Fartura tendo 492 eleitores, entre mortos e mudados, deu ao governo a grande maioria de 392 votos. Mas votos reais, cabidos alli á  boca da urna , não feitos em casa, entre um festim de ridículos parasitas.
O resultado foi doloroso; por isso o artiquete é o uivo rouco do lobo a quem deram a caça. Entretanto o Sr Trindade que tanta caramilhola impinge no seu manifesto aos povos, manhosamente occultou a vilania de ter feito espalhar que as mesas eleitoraes seriam atacadas, facto de que estas tiveram conhecimento pelo próprio comandante da força.
Como é que um homem de prestigio como se julga o Sr Trindade, recorre ao triste e miserável expediente de querer vencer pelo terror a consciência do eleitorado?
Se era um politico forte, se tinha popularidade, porque não havia de deixar correr o pleito serenamente ?
Queixa-se de um grupo. que lhe fizeram? O ridículo documento não o diz, Palavras só palavras, um conjuncto de hybrido de falsidades, dictadas por um espirito que não esta na sua hora de lucidez, desprezamos calunnias, nem a ellas sequer consagraremos duas linhas de desmentido. O que só pretendemos provar é que o Sr Trindade, perdido o pouco prestigio que tinha, não tem o direito de fazer desabafos, insultando.
Aqui do que se trata é de saber se o Sr Trindade vale ou não vale.
Venceu? Não venceu. Porque o eleitorado deu ao governo 392 votos.
Que quer portanto, o Sr Trindade ?
Porque se queixa? Que culpa temos nós do absoluto desprezo a que foi lançado pela maioria do município?
Queixe-se de si, queixe-se do seu pouco tino da sua vaidade balofa.
A condição essencial para se adquirir prestigio politico é ser-se humano, ser-se dedicado, ser-se um factor completamente ao serviço dos povos
Foi-o Sr Trindade? A resposta acaba de nol-a dar o resultado das ultimas eleições em que o espirito do município, cansado de aturar as fantochadas do grotesco títere, o lançou á margem, como um traste inútil, que para nada serve.
E... temos dito

Fartura, 12 de agosto de 1895

Geronymo Vieira de Andrade
Manoel Custodio Ribeiro
Carlos Ribeiro
Antonio Eugenio de Paula
José Cassimiro da Rocha
Hermenegildo Gonçalves Neves







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